Toda a dinâmica de fazer um filme sobre um anti-herói vem carregado de várias nuances e dinâmicas que até para os mais atentos se torna um desafio complexo e muitas vezes beirando ao impossível. Transformar uma vilã tão perversa em sua postura e caricata em sua essência faz com que esse novo live-action da Disney, “Cruella” ande constantemente “em corda bamba” e às vezes até quando já está caído no chão.

“Cruella” é a vilã mais diabólica da Disney. Sua missão de querer pegar os dálmatas para transformar em casaco não soava tão perverso na época do lançamento da sua primeira adaptação e até mesmo no live-action nos incontroláveis anos 90. A questão é que por ser uma personagem tão intensa para um livro, fazê-la funcionar é extremamente difícil. E se você acredita que ela só vai ter sentido na literatura, o que curiosamente transformou ela em algo mais viável que nos dois filmes anteriores, torna o desafio de trazer esse filme em algo ainda maior. E isso não é uma questão problemática pois o longa atual conseguiu transformar cachorros em coadjuvantes que acabam integrando bem ao elenco principal e quebrando essa expectativa de como o filme iria ou não se adaptar ao momento onde as questões dos maus-tratos à animais seriam bem mais debatidas

O maior problema aqui está na necessidade de mostrar a época em que o filme está se passando com uma trilha sonora que esquece o seu papel de possuir atmosfera ideal em uma narrativa para ser invasiva e barulhenta quando o filme pede para que ela nem exista ali.

Em contraponto a esse barulho ensurdecedor, a narrativa consegue muito bem criar um ótimo design de produção para transportar (em imagens) o telespectador para um mundo que mesmo realista e fiel à época relatada, consegue transitar por uma atmosfera onírica onde a elegância consegue se fundir perfeitamente com a decadência e a transgressão.

Por se tratar de um filme do estúdio mais conservador do cinema é notável como as questões complexas do filme não são trabalhadas com a profundidade que deveriam e até mesmo quando existe questões que não parecem ser possíveis de se esquivar o roteiro consegue fingir cegueira e passa por elas como se nada estivesse acontecendo.

Não é possível entender porque fazer um filme para tentar humanizar um vilão que funciona exclusivamente como um vilão. Emma Stone é puro carisma e seu antagonismo com a sempre excelente Emma Thompson faz com que o filme tenha motivos para ser visto, apesar da trama não acrescentar em nada, num sentido mais amplo.

“Cruella”, da Disney Plus, faz com que os filmes anteriores percam sua essência de uma vilã que é má simplesmente porque sente prazer com isso, para tentar que se crie essa tal empatia por alguém que não precisa disso – e acredito que também não quer. Mas é Disney, as pessoas vão ver independente de que se fale sobre. Então veja e se deleite com a cena do desfile onde toca “I wanna be your dog”, a única musica bem utilizada no filme.

 

Classificação:

Sob o comando de Craig Gillespie (“Eu, Tonya”) e roteiro de Tony McNamara, o filme encontra-se disponível na Disney Plus.