Por sempre ter sido associado a uma simplicidade narrativa, o faroeste – da forma que foi impregnado no imaginário coletivo – acabou seguindo por caminhos modestos e se adaptando à uma linguagem que se importava tanto em ir além do que se proponha nas tramas envolvidas. Isso, e os percalços encontrados no caminho por quem ousou seguir nesse gênero, fez com que a percepção ao estilo se tornasse cada vez mais subjetiva, objeto de admiração por muitos (críticos) e desdém por outros (público).

Pensar em Ataque dos Cães e o cinema feito por Jane Campion durante toda sua carreira faz com que compreendamos como o western deixou de ser um tipo específico de cinema e se infiltrou em todas as narrativas possíveis do cinema moderno.

Assim como o noir até hoje ecoa em filmes sobre investigação e obras de suspense, o faroeste está muito mais na relação estereótipo versus época que qualquer coisa. E é aí que filmes como Ataque dos Cães se sobressaem nos que estão sendo feitos agora e acham que entendem onde estão inseridos.

Estamos habituados a consumir um cinema cheio de imediatismos narrativos e esquecemos que o tempo no cinema não só é relativo como quem controla a direção é um verdadeiro deus temporal. A percepção narrativa e escolhas de linguagem são que formam nossa percepção de decurso, e isso é onde Campion se sobressai no seu cinema onde as coisas acontecem quando têm que acontecer e em nenhum momento sentimos a necessidade de algo que demora a chegar pois tudo chega no momento imediato a nossa demanda de apreensão.

A trama de Ataque dos Cães em nenhum momento parece ser complexa ao que se propõe contar, mas tem uma obscuridade narrativa que faz com que o filme se transforme a todo momento diante de nossos olhos. O que começa com insinuações se converte em realidade de forma sutil mas muito eficiente, fazendo com que o filme consiga passear em diversos aspectos cinematográficos sem perder fôlego ou sentido.

As questões homoeróticas podem não ser inéditas em filmes do gênero (Minha Vontade É Lei pode ser visto como precursor, mas em O Segredo de Brokeback Mountain sem sombra de dúvidas é o maior expoente), mas a sutileza e latência que Campion escolhe trabalhar o tema faz com que o filme seja tão intenso que não ficamos no questionamento de quando o filme se tornou isso porque sempre esteve ali e aceitamos.

Chega a ser irônico que os melhores trabalhos homoeróticos do cinema contemporâneo tenham sido feitos por mulheres. Se Claire Denis entregou a potência dos corpos masculinos em constante atrito no seu excelente Bom Trabalho, em Ataque dos Cães temos um excelente trabalho de direção da Campion sobre relações homoafetivas totalmente baseado em insinuações que em nenhum momento precisa se mostrar consumado o ato para excitar ou alarmar. Um verdadeiro marco cinematográfico.

 

Classificação: 5 Patas

Veja também, críticas nossas advindas da Netflix:

Estrelado Benedict Cumberbatch (“Doutor Estranho”) e Jesse Plemons (“Breaking Bad’), Ataque dos Cães é dirigido por Jane Campion e encontra-se na Netflix.