Quando falamos de Cassavetes onde quer que seja, é impossível não chegar à sua obra-prima. Uma Mulher Sob Influência é um tipo de cinema que extrapola todos os conceitos de direção e entrega de atores. Nele vemos Gena Rowlands virando uma força da natureza e sua atuação é até hoje colocada como uma das melhores atuações do cinema.

Quebrando toda e qualquer previsão, o filme se tornou um enorme sucesso comercial, fazendo com que mais uma vez Cassavetes fosse visto como uma antítese ao cinema feito na Hollywood e mostrando para muitos que era possível fazer um cinema de qualidade de forma totalmente independente.

Essa forma narrativa onde o teatro se mistura com a mise en scene de uma câmera intuitiva e expurgante não é original do cinema do nova iorquino, mas sem sombra de dúvidas se tornou sua marca registrada quando até hoje vemos ele sendo reverenciado por isso em retrospectivas tanto de sua carreira quanto de filmes englobados nessa perspectiva.

Essa independência artística fez com que Cassavetes se aventurasse em diversos gêneros, mas sempre com uma visão de autor bem presente e característico. Se alguns veem A Morte do Bookmaker Chinês como um exemplar definitivo da Nova Hollywood que estava em seu auge na época (mesmo Cassavetes sendo anterior a ela e uma das influências declaradas do movimento), foi com Noite de Estreia que o diretor mostrou que não importa as circunstâncias, seu cinema nunca vai ser objeto de contradição de valores ou intenções.

O filme – talvez o mais experimental do diretor – é uma metalinguagem sobre o cinema e o teatro onde todos os aspectos da obra são testados na tela. Assim como a personagem principal, é impossível sair da sessão de Noite de Estreia sem se encontrar em total estado de atordoamento. E por mais que o filme tenha tido um sucesso razoável de público, ele passou despercebido nas suas primeiras exibições e só anos depois foi redescoberto e alcançou o prestígio de público e crítica que hoje possui.

Essa questão Noite de Estreia ter alcançado seu lugar ao sol bem depois do tempo de sua estreia serve maravilhosamente como metáfora da carreira de Cassavetes, que por mais que tenha tido prestígio e alçado sucesso em todas as áreas da sua vida, só se tornou uma figura legítima e inquestionável do cinema quando sua vida tinha encontrado a finitude.

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