Streaming's - Reprodução

Era uma vez, uma estatueta careca e dourada que mora no Bosque de Azevinho (em inglês, Hollywood). Ao longo das décadas, foi o símbolo da celebração do cinema mundial, apesar de sempre priorizar as produções norte-americanas entre seus indicados e vencedores, dedicando pouco espaço aos filmes estrangeiros, restritos a uma categoria específica. Destacando as produções dos grandes estúdios, faladas em inglês e valorizando profissionais da indústria da sétima arte, em sua maioria, homens e brancos. Até para se tornar membro da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood, teria que ser indicado primeiro, perpetuando o círculo, abrindo pouco espaço para mudanças.

Nesse contexto, os estúdios de Hollywood ditavam as regras e jogavam as principais cartas, em seus lançamentos de filmes e séries, com maior influência sobre o mercado ocidental e menor espaço nos mercados orientais, no confronto com mais concorrência, em países como Índia, China, Coreia e Japão. Em geral, as melhores produções vinham dos Estados Unidos e dificilmente títulos dos demais países conseguiam fazer frente, seja em qualidade de produção, roteiros ou atuações. Tais filmes tinham vitrine garantida em Festivais de Cinema com real destaque para a produção mundial como o Festival de Berlim, Cannes ou Veneza.

Os ventos da mudança chegaram como chuvas tropicais leves e tomaram a forma de um gigantesco tornado. Trouxeram as plataformas de streaming e todo um mercado de intensa concorrência, a atenção do público, a mudança na rota dos lucros e gastos cada vez maiores com as produções. Se, no início, o streaming chega tímido para complementar um mercado amplo, diversificado e sacramentado em décadas, com DVD, Blu-Rays, Locadoras, Pay-Per-View, TV Paga, TV Aberta e Cinemas, agora a conversa mudou totalmente. O streaming hoje é um monstro devorador que já aniquilou os mercados de DVD, Blu-Rays, Locadoras e Pay-Per-View, sendo uma séria ameaça aos mercados de TV Paga, TV Aberta e as próprias salas de cinema, numa situação agravada pela Pandemia.

No cabo de guerra entre serviços de streaming mais robustos como Netflix e Amazon e os estúdios de Hollywood, em seus passos cambaleantes como novos concorrentes, através da Disney Plus, Star Plus, Hbomax, Paramount Plus e o Peacock, uma das estratégias que se consolidaram nos últimos anos foi ampliar as produções de cada plataforma.

A Netflix mergulha de cabeça na estratégia de encontrar novas produções, numa busca constante de filmes e séries pelo mundo inteiro, sejam licenciadas ou produções próprias. Com uma diferença gritante em relação ao passado. Várias produções mundiais competem em pé de igualdade com as produções norte-americanas ou inglesas, independente de nacionalidade ou idioma ou gênero. Sejam filmes, séries, animações, documentários, musicais, etc.

Antes, as produções de Hollywood garantiam naturalmente mais espaço nas salas de cinema pelo mundo, nos canais de TV. A era dos streamings mudou o eixo. O mundo inteiro compete com o mundo inteiro. E Hollywood torna-se apenas mais uma fonte, mais uma biblioteca. Tal estratégia da Netflix tornou-se tão vitoriosa que restou a toda concorrência a seguir essa tendência, apostando também em produções do mundo inteiro para o mundo inteiro. Tudo isso cai na cabeça do careca dourado, como o Lobo Mau de olho na Chapeuzinho Vermelho. As várias premiações dos Estados Unidos vão perdendo a força, o impacto, a audiência, a relevância. Não basta ter uma categoria para filmes estrangeiros, é preciso ter espaço mais amplo. É preciso reconhecer mais e sair do eixo, do conforto, da acomodação.

É curioso que a Netflix, na ânsia de conquistar mais reconhecimento através dos prêmios, tenha envolvimento direto em abalar outra premiação tradicional, o Globo de Ouro, com um escândalo que influenciou vários membros votantes com passagens e hospedagens em Paris, para que a série Emily em Paris pudesse concorrer nas categorias de televisão. A credibilidade da premiação foi tão abalada que ela perdeu todo o prestígio, sofreu boicotes e deu visibilidade para a falta de diversidade e representatividade entre os membros votantes, formados por jornalistas estrangeiros que cobrem Hollywood, em sua maioria homens e brancos.

A Academia, responsável pelo Oscar, percebendo os riscos que enfrenta, passou a adotar uma série de modificações nos últimos anos. Abriu para 10 candidatos a Melhor Filme, o dobro de antes. Passou a aceitar novos membros independente deles serem indicados, Ampliou a participação de mais negros, mulheres, latinos, europeus, asiáticos e de mais nacionalidades. Incluiu nas regras de escolha dos indicados, mais critérios para favorecer produções representativas. Aos poucos, tais medidas começam a surtir efeito nas listas de indicados e premiados. No Oscar 2020, tivemos o grande impacto com a surpreendente vitória do filme Parasita (2019), da Coreia do Sul. Levou Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original e Filme Estrangeiro. Sendo o primeiro filme em língua não inglesa a conquistar a premiação principal.

Para se ter uma ideia do conservadorismo da premiação, na história do Oscar, apenas sete mulheres foram indicadas à categoria de Melhor Direção e só duas venceram: Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror) e Chloe Zhao (Nomadland). Apenas cinco astros negros venceram os prêmios principais de atuação. Sidney Poitier, por Uma Voz nas Sombras (1963), Denzel Washington, por Dia de Treinamento (2001) e Halle Berry, por A Última Ceia (2001), Jamie Foxx, por Ray (2004), Forest Whitaker, por Último Rei da Escócia (2006). Das mais de 3000 estatuetas entregues, apenas 44 foram para profissionais negros. Apenas 6 diretores negros foram indicados a Melhor Diretor. Nenhum vencedor.

O Oscar precisa correr, acelerar as mudanças, ampliar a diversidade entre indicados e premiados, se quiser sobreviver a esse novo cenário onde o streaming começa a pressionar por novas regras, novas posturas e mais abertura. Do contrário, o Oscar pode cair no esquecimento, perder a relevância e até o bonde da história da sétima arte.

Leia outros editoriais nossos:

As indicações desse ano prometem aprofundar as mudanças. Pelo menos por um tempo, ainda ouviremos aquela frase: And the Oscar goes to.

By Ronilson Araujo

As artes se unem para celebrar a grandiosidade da Sétima Arte e representar a vida, a 24 quadros por segundo. Por isso, o cinema é tão fascinante e reflete sua relevância diante de toda a Cultura Pop.

One thought on “Oscar pode perder o bonde da história, pressionado pelo streaming”

Comments are closed.