Dando sequência a invasão de séries do universo Star Wars (e Marvel) no serviço de streaming Disney Plus, vemos agora a chegada de outro mercenário, o mais famoso e icônico, Boba Fett (Temuera Morrison), introduzido nos filmes clássicos da saga espacial, criados por George Lucas. A série  é também situada num período, após os conflitos mostrados no filme, O Retorno de Jedi (1983) e segue a trilha de sucesso da série, O Mandaloriano (2019). 

Através de duas linhas narrativas paralelas, desenvolvidas num ritmo mais lento do que os fãs mais afoitos esperavam, vemos a jornada do mercenário em dois momentos distintos. Um grande flashback mostra como ele perdeu tudo no deserto de Tatooine, quando foi abandonado para morrer, numa cilada mortal chamada Sarlacc. Vemos sua luta pela sobrevivência, seus problemas, enquanto escravizado numa tribo Tusken. Suas novas alianças e inimigos, enquanto tenta se recompor, se reconstruir. Uma jornada longa, penosa e sofrida. Continuamos um mergulho bem produzido no Universo Star Wars, em elementos vistos antes, apenas de relance nos filmes.

De forma alternada, acompanhamos como Boba decide querer assumir o poder do famoso mafioso local, Jabba, the Hut, para assumir como o novo “Daimyo”, título extraído da História, dado aos senhores feudais japoneses. Num desfile pelo submundo, com personagens desgarrados e excluídos. Mas o vácuo do poder desperta o interesse de outros inimigos que se tornam uma ameaça imediata aos planos de Boba. No caminho, ele enfrenta todo tipo de percalços, armadilhas e surpresas, em geral, desagradáveis. Sempre escoltado por sua aliada de primeira hora, Fennec Shand, grande destaque da série, interpretada por Ming-Na Wen. Não é fácil para Boba, porque ele encontra oposição e resistência de todos os lados. Através da diplomacia e de decisões cautelosas, ele avança em seu intento. Por onde a série avance, o ambiente de Star Wars está ali, resgatado, vívido, preenchendo lacunas do cenário desse universo no grande hiato entre Retorno de Jedi e O Despertar da Força. Vale ainda destacar a atuação de Timothy Olyphant, como o Xerife, Cobb Vanth, além das presenças de Jennifer Beals (“Flashdance”) como a dona da cantina, Garsa Fwip e Danny Trejo, num papel inusitado.

A abordagem da série em enfatizar o drama, numa trama de máfia, em cenário do velho oeste, ainda que, numa galáxia muito e muito distante, não correspondeu bem às expectativas dos fãs que esperavam ver mais ação e cenas de combate a altura do lendário guerreiro Mandaloriano. Essa leitura é agravada quando o protagonista opta pela diplomacia, na luta pelo legado de Jabba, do qual ele era um mero auxiliar, contratado como mercenário. Apesar de também ser um mandaloriano, com toda a carga cultural e religiosa que vem atrelado, Boba se mostra cansado de sua vida errante e busca um tipo de aposentadoria de luxo. Mas, de qualquer forma, tal meta não se conquista pedindo, por favor. Precisamos ainda lembrar que a série é para o Disney Plus, ou seja, conteúdos família. Tarantino, nem pensar.

O deleite visual impressionante e as referências constantes focadas nos fãs não são o suficiente para sustentar a trama e a série recorre a uma muleta narrativa imensa que toma dois episódios. Literalmente, a trama principal é interrompida e abraça dois episódios que deveria ser de O Mandaloriano, em que situam o astro da outra série, o Din Djarin e o icônico Baby Yoda, chamado Grogu, em pleno treinamento Jedi, com participações pra lá de especiais, pra deixar qualquer fã vibrando. Não vou soltar esse spoiler de quem são.

Mas esses dois episódios, muito bem construídos e conduzidos, estão entre os melhores da série, ao mesmo tempo que são os piores, no contexto de que a trama principal precisa aguardar até os amigos chegarem. Foi uma péssima escolha de roteiro e edição. As aventuras dos ilustres amigos deveriam ser apresentadas aos poucos, ao longo dos episódios, sem deixar de destacar as principais tramas da série, para evitar essa interrupção abrupta e longa que soa deslocada do restante.

Mas o episódio final é uma verdadeira festa, com todo mundo colaborando num conflito intenso, grandioso, em escala mais ampla, em que cada um entra com sua contribuição. Claro que a gente perdoa a sucessão de clichês presentes na resolução. Basta ver com alegria, o Boba e seu “bichinho” Rancor. A série assume o lado faroeste de vez e temos um duelo monumental entre Boba Fett e o pistoleiro Cad Bane, cujas feições são inspiradas em expressões do astro Clint Eastwood, especialmente, nos clássicos faroestes spaghetti. O temível pistoleiro é um personagem recorrente nas animações da saga e sua presença sempre causa impacto e tensão. Só faltou na série, a tradicional cavalgada em direção ao pôr do sol. Já a cena pós-crédito, de tão clichê, perde impacto dramático.

Essa dependência da série de Boba pela do Mandaloriano não é benéfica e diminui sua força narrativa. Pelos motivos indicados antes, além do fato de que é preciso assistir a série do outro mercenário primeiro, nas duas temporadas, pra entender certos contextos apresentados aqui. 

Mas temos duas heranças positivas da série anterior para a nova. As filmagens através do domo revolucionário, chamado Volume, que inova o uso dos efeitos e a utilização de cenários digitais de forma realista, permitindo uma interação maior entre elenco e o ambiente. Tanto nos reflexos, quanto na luz. Bem como interpretações mais intensas. E a trilha sonora do novo mestre jedi Ludwig Göransson que compôs um tema vibrante, mesmo com seus tons mais dramáticos que bebe dos elementos clássicos, inclusive o coral de vozes, dos faroestes spaghetti, diferente da marcha vibrante e heroica de O Mandaloriano, do mesmo compositor. Atente para o tema no final do último episódio em que temos uma sutil e inteligente diferença celebrando a série. Apenas os mais atentos perceberão.

De qualquer forma, é preciso celebrar a produção e o cuidado em conduzir a série respeitando os fãs e preservando a essência do que faz Star Wars, uma das maiores franquias do cinema, da TV e, agora, dos streamings. As séries Star Wars, O Mandaloriano e O Livro de Boba Fett conseguem ter mais relevância para a mega franquia que os filmes da última trilogia. Um mérito dos responsáveis Jon Favreau, Dave Filoni e Robert Rodriguez, com destaque aos episódios dirigidos por Filoni, Rodriguez e pela atriz e diretora, Bryce Dallas Howard.

Independente de altos e baixos, Boba Fett permanece sempre à sombra de seu parceiro O Mandaloriano. Ambos são mercenários que abandonaram suas doutrinas. Mas os motivos que conduzem Djarin são nobres e altruístas, enquanto Boba tem ambições questionáveis, dificultando ao público mais amplo, em aderir a sua causa. Apesar do gancho apresentado na cena pós crédito, talvez a série do Boba Fett não consiga mais enxergar a luz dos dois sóis de Tatooine no futuro.

 

Classificação:

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