As questões que surgem quando começamos a assistir “Ruptura” é quase uma progressão aritmética que vai crescendo em nossa cabeça. Abraçar o absurdo e se entregar para o desconhecido talvez seja a forma mais eficiente de assistir a nova série da Apple TV+ que se mostrou bem superior às expectativas que estão sendo levantadas por todos que a assistem e querem compartilhar a experiência de alguma forma.

Por ser uma série com viés no mistério, Ruptura se faz no fora de tela. Assim como “Twin Peaks” foi para os anos 90 e Lost para os anos 2000, estamos diante de um provável fenômeno intermídia que se alimenta bem mais das teorias que foram (e serão) criadas que no simples ato de parar para assistir um capítulo semana após semana.

Estamos saindo de uma mentalidade compulsória da “maratona de séries”, levantada principalmente pela popularidade predatória da Netflix. São poucas séries que conseguiram sobreviver ao esquema tradicional de um capítulo semanal. Na verdade, pensando agora de cabeça só consigo lembrar de Grey’s Anatomy e as séries policiais que conseguiram permanecer nesse formato sem perder sua força.

Ruptura chega em um momento interessante em que os streaming começam a criar formas diferentes de interação com o público e permitem que uma série que volte aos moldes de mistérios consiga ter força simplesmente pelo boca-a-boca.

E não estamos falando de uma série superfaturada ou megalomaníaca. Com uma história simples e direta com uma complexidade em camadas, a série criada por Dan Erickson se garante única e exclusivamente no seu texto. E a cada episódio estamos diante de um emaranhado de mistérios que, por mais que sejam intrigantes, nunca se tornam uma angústia pela dúvida adquirida que nos faz perder o interesse pela jornada da descoberta.

O que se tem muito em “Ruptura” é a vontade de continuar no escuro. Por mais que as teorias entrem como enchentes em nossas cabeças, tem ali no meio uma vontade de permanecer curioso e com dúvidas. Como uma necessidade de continuar no mistério pela sensação de continuar vivo que ele nos traz.

Não sabemos ainda se estamos diante de uma série que vai se perder em sua própria mitologia como Lieber e Lindelof fizeram, ou vamos entrar em um misto de good/bad trip envolventes como Lynch e Frost conseguiram fazer como ninguém, mas essa primeira temporada de Ruptura é sem dúvidas uma das coisas mais interessantes e divertidas que a televisão entregou nos últimos anos.

E mesmo que o futuro do programa não tenha o mesmo brilho que esse primeiro ano, podemos voltar sempre voltar aqui e fingir o que ainda está por vir.

 

Classificação:

Leia também, algumas críticas nossas:

A primeira temporada de “Ruptura” pode ser encontrada na Apple TV+. O programa já foi renovado.