Constantemente somos confrontados com a questão de qual é o verdadeiro papel do cinema com seus telespectadores. Alguns dirão que é para entreter, outros que é para indagar reflexões, e até os mais extremistas que o cinema é o confronto constante daqueles que ousam ficar na frente da tela. O cinema é tudo isso, assim como toda arte também é. A missão de questionar enquanto nos faz refletir diante do entretenimento.

“Medida Provisória”, da H2O Filmes, é um cinema que conversa paralelamente com vários fatores do que podemos conhecer como arte de protesto, mas sendo seu próprio censor ao entregar o que acha que é viável para seu público – impossibilitando-o de tirar suas próprias conclusões daquilo que estão consumindo.

Desde a retomada do cinema nacional fomos apresentados a vários filmes que tem como principal conduta a de fazer com que o público tenha uma reação imediata diante deles. Não que isso seja uma exclusividade daqui, já que esse tipo de cinema vem sendo elaborado desde os cineastas teóricos soviéticos (sendo Eisenstein com seu Encouraçado Potemkin o mais notável de todos) para o que acreditam ser uma arte (ou cinema) do povo para o povo.

Mas “Medida Provisória” é um filme para o povo?

Podem parecer complexas as questões que Lázaro Ramos quer levantar em seu filme de estréia, mas é tudo tão simplório, numa tentativa de fazer a narrativa ser mais maniqueísta do que deveria, que ficamos diante de uma tese mal finalizada e que acredita ser melhor do que realmente é.

Os problemas não se limitam apenas na temática, mas se tornam mais agravantes todos esses erros quando a execução é pobre. A direção estreante é visível em todos os momentos que o filme pede um pulso firme, e as escolhas são tão previsíveis que a todo momento a imersão é interrompida.

Porém, o maior problema de “Medida Provisória” é a ingenuidade de não perceber que seu público alvo não é necessariamente aqueles que a obra escolhe contar as histórias.

John Cassavetes sempre deixou claro que seus filmes são feitos para incomodar, pois ele acreditava que o incômodo é o mais genuíno sentimento para gerar reflexão. Lázaro Ramos escolhe incomodar as pessoas erradas nesse filme. Enquanto parte do público sente o engodo do que está na tela pela fácil analogia com a realidade, a outra metade bate palmas porque o diretor não percebe que às vezes mostrar exceções diante da barbárie é um caminho ruim de se seguir.

As vezes é mais interessante querer as vaias daqueles que nos aplaudem.

 

Classificação:

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Com direção e roteiro de Lázaro Ramos, co-escrito por Lusa Silvestre, “Medida Provisória” encontra-se em cartaz, exclusivamente, nos cinemas.

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