Dando sequência a expansão do Universo Marvel em telas, seja nos filmes lançados nos cinemas, seja nas séries, agora centralizadas no serviço de streaming Disney Plus, chegou na plataforma, em junho, a série Ms. Marvel, com seis episódios, cercada de grande expectativa, por ser a adaptação de uma personagem mais recente da Editora Marvel que conquistou popularidade nos quadrinhos, muitos prêmios, reconhecimento de público e crítica, estando mais alinhada com as atuais diretrizes da empresa, no enfoque de valorizar o empoderamento feminino, inclusivo e trazer a perspectiva de uma cultura imigrante fora do protagonismo tradicional de décadas nos quadrinhos norte americanos. O trailer também estimulou a curiosidade do público.

Ms Marvel, alter ego da jovem Kamala Khan, é uma adolescente norte-americana, de origem paquistanesa, sendo a primeira protagonista muçulmana nas revistas da editora. Foi criada pelos editores Sana Amanat e Stephen Wacker, a roteirista G. Willow Wilson e os artistas Adrian Alphona e Jamie McKelvie. A primeira aparição foi como coadjuvante na revista 14, da heroína veterana, Capitã Marvel, em 2013, ganhando revista própria em fevereiro de 2014. Deu tão certo que a primeira saga da revista, Nada Normal, conquistou o Prêmio Hugo de Melhor História em Quadrinhos de 2015, dedicado às obras de Ficção Científica. A mesma saga serve de inspiração para a trama da nova série.

A série acerta, de cara, na escolha da protagonista Kamala, interpretada por Iman Vellani.  A jovem atriz consegue transmitir todas as nuances da nova heroína. Dúvidas, inseguranças, leveza, ingenuidade, conflitos com a própria família, enquanto transita entre infantilidade e maturidade. Kamala é uma garota dos tempos de hoje. Tem blog, uso ativo na Internet, em canais de vídeos, em redes sociais e trocas de mensagens entre amigos. Sua grande paixão pelos super heróis, em especial pela Capitã Marvel, desperta nela o interesse em participar de uma convenção dedicada aos supers. Lembrando que ela está inserida no mesmo universo retratado nos demais filmes e séries da Marvel. O acaso (ou destino) a colocam diante de uma herança de família, um bracelete, visto de forma negativa pela mãe de Kamala que parece até assombrada. Nos divertimos com as escolhas e maneiras da Kamala lidar com esses desafios de seu cotidiano, muitas vezes, fugindo de sua realidade limitante ou desinteressante, para mergulhar em fantasias escapistas. A narrativa cresce ao retratar tais elementos com bastante criatividade e dinamismo.

Muitas tramas de super heróis retratam esse processo de amadurecimento dos personagens em lidar com os poderes e encontrar seu lugar no mundo, alinhado com o próprio processo do público de jovens leitores, em suas fases de adolescência. Personagens como Dick Grayson – Robin/Asa Noturna e Peter Parker – Homem Aranha foram grandes referenciais nos quadrinhos que representam esse perfil e criam grande identificação com os leitores/espectadores. Hoje, grandes referenciais recentes são Miles Morales, o Homem Aranha da linha Ultimato e justamente Kamala. Ms Marvel não poderia fugir a essa responsabilidade e mergulha de cabeça na construção desse perfil, adicionando mais elementos a essa equação. Afinal, Kamala exige uma complexidade maior. Seus conflitos acrescentam o legado histórico da personagem com o Paquistão, a raiz muçulmana e o fato de pertencer a uma comunidade imigrante nos Estados Unidos. O que Vellani transmite com muita naturalidade. 

A série é ainda vitoriosa ao construir uma linguagem visual criativa, bem alinhada ao visual da série em quadrinhos, atualizando os elementos da influência da Internet, das redes sociais, da dinâmica das trocas de mensagens, dos streamings de vídeo, como afetam hoje, a vida dos jovens, de forma integrada na narrativa. Atente que a família de Kamala, embora mantendo boa relação com a filha, não concorda plenamente com as aspirações da jovem e cria empecilhos típicos da busca de proteção, especialmente, se tratando de uma filha adolescente, no contexto em que a família se encontra nos EUA.

Enquanto acompanhamos o nascer de uma nova heroína com um misto de encantamento, diversão e curiosidade, mesmo estando saturados de tantas histórias de origem que assolam o gênero. Mesmo assim, a série não pode ser celebrada por sua fidelidade. Temos um estranhamento quanto a origem dos poderes da protagonista, diferente dos quadrinhos. No original, Ms Marvel é fruto da influência dos Inumanos ao sofrer mudanças ao ter contato com uma nuvem terrígena e sofre alterações genéticas evolutivas ganhando seus super poderes. Na série, os poderes se manifestam a partir do contato com um bracelete herdado da família, cuja origem é envolvida em mistérios que se revelam ao longo dos episódios. Os próprios poderes sofreram mudanças na adaptação. Nas páginas dos quadrinhos, Ms Marvel pode alterar as dimensões de seu corpo, até mesmo a aparência. Na série, ela preserva o dom original, mas pode projetar rajadas de energia, solidificar essa energia, atravessar dimensões e o tempo. 

As dificuldades de tentar conciliar rotinas, escola, amizades, família, comunidade, com a vida de super heroína e a descoberta de seus dons, elementos da base da popularidade do Homem Aranha que Kamala consegue transpor com desenvoltura para o público atual. Entretanto, o enfoque na série de agradar o público alvo adolescente e não se levar a sério permite diversas brechas no roteiro de conveniências incômodas, ou ilógicas, ou falta de desenvolvimento de consequências coerentes ou forçadas de barra típicas de produções adolescentes, o que resulta em decepção no público mais maduro. Além da inclusão de situações “fofinhas” como a sequência de dança, no casamento do irmão, que remete às produções recorrentes da Índia (Bollywood) e do Paquistão, a solução do “caminho de luz”, na sequência da estação de trem no passado e o grande confronto na Escola, repleto de clichês, inconsequências e conveniências que beiram a frustração. 

Apesar de haver um grande respeito pela cultura paquistanesa e muçulmana, o dinamismo dos episódios e a autenticidade da jovem protagonista como pontos altos da série, seus vilões deixam a desejar de tão genéricos e superficiais. Como os agentes do Departamento de Controle de Danos, o grupo de Djins chamados Clandestinos, até mesmo aliados perdidos como o grupo Adagas Vermelhas que entram e saem sem grande fundamento. No final da série, – alerta de spoiler – para ganhar maior relevância, temos a revelação que liga Kamala aos mutantes da Marvel, até tocando um trecho da trilha da animação dos X-Men no episódio, o que para a protagonista, a informação não causa impacto por ainda não haver qualquer relevância a jovem, ainda. E a cena pós crédito ocorre uma troca que resulta na chegada da Capitã Marvel, grande heroína da jovem Kamala, preparando o terreno para o filme previsto para lançamento em 2023, As Marvels.

Entre pontos altos e baixos, a série Ms Marvel surge como uma boa surpresa, sendo superior a muitas outras séries recentes da Marvel. Embora distante de atingir uma plena maturidade enquanto produção. Mesmo assim, uma segunda temporada seria bem vinda.

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