Esboçar uma narrativa cinematográfica a partir do caos requer uma qualidade inventiva fora do comum, pois não há uma fórmula perfeita que traga o tão desejado ‘equilíbrio textual’. Poucas, não, deixa eu reformular, raras são as produções ao longo do tempo que deram certo nesse diapasão.

“Trem-Bala”, da Sony Pictures, foi construído a partir dessa premissa. A perspectiva do diretor David Leitch (“Deadpool”; “John Wick”) era buscar um resultado aprazível junto ao público. E para facilitar o seu discurso maneirista, ele até tentou a mistura de modo sinérgico a comédia e a ação, porém como dito anteriormente, o resultado perfeito é muito, mas muito difícil. E como resultado, Leitch conseguiu um triste recorte mal elaborado que se perdera dentro de seu próprio discurso.

A trama se passa num espaço confinado e super-rápido, com breves solavancos – o que parece no mínimo intrigante para o público – numa metafórica aventura ‘gato e rato’. E “Trem-Bala” começou realmente bem… Com um primeiro ato curto e enxuto, o filme buscou situar a todos entre a maré de azar do protagonista de Brad Pitt e uma maleta cheia de grana. Mas, no próximo momento, Leitch – que tinha acertado até ali – extrapolou nos recursos textuais, tornando o longa arrastado e até desnecessário em informações.

Foi um show de atropelos e ideias legais descartadas. Um bom exemplo disso foi a incursão do Lobo de Bad Bunny e a Vespa de Zazie Beetz. Por outro lado, David lutou por outras peças baseado puramente no plot. Como a morte, não morte de Limão, do astro Brian Tyree Henry. Além disso, não dá pra criar ‘corpo’ baseado em flashback’s. Você não cria empatia, muito menos uma identidade com o público. Ou seja, não basta carregar um elenco de ‘peso’, sem uma compreensão natural da função de cada um na história, é quase um suicídio criativo. Sobre o protagonista, o famigerado Joaninha, papel de Pitt, vimos o seu arco encolher e expandir por várias e várias vezes, num processo caótico e sem convicção do escritor. Aliás, nem sempre as piadas ou as ironias encaixavam-se nos momentos propostos, principalmente pelo excesso de fala. Pra ser honesto, em “Trem-Bala” pouco foi arrancado do elenco, ficaram quase todos na base do ‘OK’.

Mas nem tudo é ruim no filme da Sony. Como filme de ação, “Trem-Bala” não decepciona, se você pode ficar perdido no enredo e nas cores extravagantes impostas [algo que não achei ruim], as lutas, os embates são bem trabalhados e interessantes. Além do toque de Leitch, Antonie Fuqua (“O Protetor”; “Dia de Treinamento”) comanda com sucesso esse quesito na pele de produtor do longa. Os demais componentes técnicos, como trilha sonora, mixagem e edição de som funcionaram dentro do objetivo estabelecido.

Apesar dos pesares, “Trem-Bala” funciona como entretenimento. Você consegue se divertir nele, mas é só isso mesmo. Aqui está um típico blockbuster americano – cheio por fora e vazio por dentro -. Não há relativização textual, nem muito menos interesse pelos personagens. Enquanto superior nos quesitos que compõem o gênero, “Trem-Bala” falha como obra e descarrilha rumo ao horizonte pré-estabelecido na jornada da vida.

Classificação:

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O longa da Sony Pictures, “Trem-Bala” estreia, exclusivamente, nos cinemas amanhã (04).

By Amauri Alves

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante (...) Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

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