A Netflix investe para deixar Hollywood enterrada no passado

Desde que começou a correr atrás de produzir seus próprios conteúdos e abrir uma ampla vitrine de produções mundiais, em contraposição a perda de conteúdos dos estúdios de Hollywood, a Netflix decidiu realizar diversos ataques, através de suas produções, seja de maneira sutil ou de maneira escancarada, contra a indústria que a criou. A exemplo da série chamada justamente de Hollywood (2020) que revela os abusos, desilusões, manipulações e explorações da indústria norte-americana de cinema, produzida por Ryan Murphy. Outra obra que segue essa linha é o filme Mank (2020), de David Fincher, que ironicamente celebra um dos maiores clássicos do cinema, Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, como se tivesse sido filmado por Welles, mas revela todos os conflitos dos bastidores, o jogo do poder e as implicações da obra na vida de seus envolvidos, em especial, o roteirista do clássico, Herman J. Mankiewicz, foco do filme. Outra dose de ironia é ver o filme receber 10 indicações ao Oscar e figurar entre os grandes competidores do ano. Mais filmes com um olhar crítico sobre Hollywood. Meu Nome é Dolemite (2019) e O Outro Lado do Vento (2018), filme inacabado a décadas, do próprio Orson Welles, concluído apenas pela Netflix.

Dependendo da obra da plataforma, o ataque é mais sutil. Filmes novos que resgatam elementos dos clássicos, sem deixar de atender aos anseios do público moderno, em qualquer gênero, como A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata (2018), Estrada Sem Lei (2019), História de um Casamento (2019), Roma (2019), vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para o México, A Voz Suprema do Blues (2020), A Escavação (2021). Outra estratégia é investir em refilmagens de clássicos como Rebecca – A Mulher Inesquecível (2020), inspirada no suspense de Alfred Hitchcock ou no já citado Mank (2020), quase uma refilmagem de Cidadão Kane. 

Outra abordagem foi apresentar novas produções que emulam épocas anteriores. Ou seja, como se fossem filmadas em outra década. Cito novamente Mank (2020) que emula os anos 40 e a série de terror Stranger Things (2016), prato cheio para os fãs dos anos 80. Em outra abordagem, a Netflix estimula seus criadores a realizarem projetos ousados que os estúdios não têm coragem de apostar, nem mesmo aqueles dedicados ao cinema independente. A empresa assume os riscos. Pode ter resultados lamentáveis, mas os bons exemplos estimulam a chegada de novos assinantes, fazem a festa dos críticos e das premiações. A lista de exemplos já é imensa. House of Cards (2013), Feras Sem Nação (2015), The Crown (2016), Okja (2017), La Casa de Papel (2017), Joias Brutas (2019), O Irlandês (2019), Dois Papas (2019), Boneca Russa (2019), O Poço (2019), Os 7 de Chicago (2020), O Gambito da Rainha (2020), etc, etc, etc. Até em produções brasileiras como 3%, Coisa Mais Linda (2019) ou Cidade Invisível (2021).

Tudo isso, estimula o público a questionar os clássicos e não aceitar os contextos retratados antes, em histórias inéditas de rejeição por parte do público nunca vistas no passado, quanto aos clássicos do cinema. Sobrou para E o Vento Levou (1939) que ficou no risco de ser banido no serviço da HBOMax, acusado de depreciar os negros ou Grease – Nos Tempos da Brilhantina (1978), exibido com grande divulgação na TV da Inglaterra e sofreu criticas generalizadas do público jovem, nas redes sociais, por preconceito, misoginia e vulgarização das mulhres, exigindo que o filme fosse banido de ser exibido na TV para sempre. O exemplo mais recente atingiu o personagem de desenhos infantis, conhecido no Brasil como Pepe, Lê Gambá, banido da continuação da animação Space Jam, devido à pressão do público, por suas atitudes abusivas contra as mulheres. Muitos outros filmes, antes considerados clássicos absolutos, não estão sobrevivendo as releituras dos novos tempos. Isso cria uma sensação de desconfiança do público novo de se interessar por outros filmes clássicos. E onde estão disponíveis os clássicos de Hollywood? Justamente nos streamings concorrentes dos estúdios centenários. 

Essa mudança extrema no gosto do público já aconteceu no passado distante. Os filmes mudos passaram a ser rejeitados, desde a chegada do cinema sonoro com O Cantor de Jazz (1927). As produções em preto e branco perderam cada vez mais espaço depois da chegada do cinema a cores, com O Mágico de Oz (1939), além de …E o Vento Levou (1939). Há um risco de vermos esse período como um divisor de águas. O cinema antes e depois da Netflix, dependendo de como o público vai lidar com os clássicos da Sétima Arte.

É verdade que existiu outra fase na história da própria Netflix. Em que a empresa era parte das engrenagens do universo das locadoras de filmes e mantinha ótima relação com os estúdios de Hollywood nos anos 90. A Netflix era uma grande cliente dos estúdios, por comprar imensos acervos de filmes em DVD que locava para os clientes de forma inovadora para a época. Os clientes podiam escolher, pedir e devolver os filmes pelos Correios. E, enquanto não devolvessem, não poderiam escolher novos filmes. Serviço que a empresa atende ainda hoje, numa proporção bem menor de clientes.

A primeira fase teve força, até que a Netflix resolveu arriscar em um segmento ainda inexplorado, naquela época, do streaming. Só havia o sucesso do You Tube até então. Para viabilizar isso, a empresa precisou de todo o apoio dos estúdios de Hollywood para utilizar os conteúdos de filmes, séries, animações e documentários de várias épocas. Inicialmente, os estúdios ficaram satisfeitos com essa parceria porque encontraram na Netflix mais uma forma de capitalizar em cima do arquivo de seus filmes, somado aos rendimentos dos mercados de cinema, TV paga, TV aberta, DVD, como também as redes de locadoras.

Com o tempo, o streaming evoluiu chamando a atenção de outras empresas de olho no sucesso da Netflix, como a Amazon e a Apple, que se tornaram concorrentes. Além disso, a Netflix mostrou ser uma empresa pouco transparente em sua relação com os estudos. O que incomodou bastante porque a famosa empresa prende informações precisas de audiência sobre seus conteúdos com a precisão absoluta de saber o exato momento de um filme em que o público perde ou renova o interesse. Essas informações colhidas pela Netflix, numa escala chamada Big Data, nunca foram compartilhadas com os donos dos filmes. Tornando difícil estabelecer a cobrança, pelos estúdios, de valores considerados justos.

Outro complicador foi que o avanço e as facilidades oferecidas pelos streaming começaram a minar todos os outros segmentos que ajudavam nos lucros dos estúdios. Um a um, vimos esses segmentos entrarem em declínio. Especialmente as vendas de DVDs. Como um capítulo à parte, de maior gravidade, a humanidade passou a enfrentar uma pandemia, enfraquecendo as salas de cinemas e todo o circuito exibidor no mundo inteiro. 

Os estúdios passaram a enxergar a Netflix, não mais como um parceiro ideal, mas sim, o maior de todos os inimigos da indústria cinematográfica. A nova percepção foi o estopim de uma corrida desbaratada dos estúdios para reagirem ao sucesso da plataforma, lançando seus próprios serviços de streaming. Por sua vez, a Netflix começou a acelerar para produzir seus próprios conteúdos, dando início a uma nova Guerra Fria. Uma batalha dos streamings. A busca pelos conteúdos mais valiosos. Nesses tempos, quem tem conteúdo, é rei.

Nos últimos anos, a Netflix passou a investir em produções que atacam velhos paradigmas, crenças e valores, em documentários que denunciam muita sujeira e corrupção que existe nos bastidores de qualquer segmento, com enfoque especial aos bastidores do próprio cinema. Que atacam, diretamente, tudo o que significa e representa Hollywood.

Com esse conjunto de estratégias, a Netflix  se isola em sua trincheira para poder enfrentar melhor seus grandes rivais. Entretanto, devemos lembrar que a própria Netflix também se tornou uma gigante, pronto para um conflito que, há muito tempo, deixou de ser uma batalha de Davi versus Golias. Quando os estúdios reagem, criando seus próprios serviços de streaming, como Disney Plus, HBOMax, Paramount Plus, Pluto TV, Disney Star, Peacock, eles também cavam suas trincheiras nessa guerra para tentar resgatar seu público perdido, além de seduzir as novas gerações. Naturalmente, só o tempo vai dizer quem  vencerá esse conflito. Essa guerra dos streamings. Porém, diante de tanta concorrência, quem ganha é o consumidor.

Veja outros editoriais nossos:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *