Falcão e o Soldado Invernal – 1º Temporada (2021) | Crítica

Enquanto a Marvel colhe os louros do sucesso dos filmes nos cinemas, os Estúdios Disney abrem seu serviço de streaming, o Disney Plus, ancorado pelo lançamento de filmes e séries de suas franquias de sucesso, inclusive baseadas nos populares personagens da Marvel. É nesse embalo que vimos nascer a série Wandavision (2021) e, no passo seguinte, chegou Falcão e o Soldado Invernal (2021). 

A primeira série dessa nova safra não foi capaz de corresponder às expectativas do público em sequências de ação e conflito suficientes. Então, a série do Falcão apostou nesse caminho de forma satisfatória, com várias cenas empolgantes nos episódios. Construindo personagens envolventes, outros, nem tanto. Fazendo da série, um ótimo veículo de preparação do público para a futura aventura de Capitão América 4, novo filme anunciado dias atrás para chegar aos cinemas nos próximos anos.

Já, no primeiro episódio, de ritmo frenético e vertiginoso, vemos cenas aéreas que não ficam devendo nada aos filmes, como o confronto de Falcão com aeronaves em território inimigo. Investir pesado na ação não fez a série esquecer de desenvolver seus personagens. Os “mocinhos” foram bem fundamentados. A começar pela dupla protagonista Falcão ou Sam Wilson (Anthony Mackie) e o Soldado Invernal ou Bucky Barnes (Sebastian Stan). Forjados na cartilha de filmes e séries policiais com a dicotomia (Policial Bom x Policial Mal ou Louco). Eles beberam de uma fonte emblemática. A franquia Máquina Mortífera. Sam é o bom moço, homem de família, militar respeitado que conquista a amizade e a confiança do Capitão América original, refletindo o personagem de Danny Glover da famosa franquia policial. Bucky traz uma pitada de caos equivalente à atuação de Mel Gibson na franquia clássica. Amargurado, solitário e atormentado por crimes que cometeu no passado quando era controlado pelos seus inimigos. As visitas obrigatórias a psicóloga, bem como a aproximação de Bucky ao ambiente família de Sam aprofundam as referências com famosa saga policial, iniciada nos anos 80.

Meio a contragosto, os protagonistas precisam unir forças para investigar um grupo terrorista chamado Os Apátridas. Uma releitura do personagem solitário que veio dos quadrinhos, porque, na nova versão, são múltiplos terroristas e ajudantes voluntários, organizados através de aplicativos, redes sociais e a Internet. Aparecem e somem de forma coordenada para agir com celeridade, dificultando investigações e perseguições. Eles defendem o ideal de quebrar fronteiras e reunir todos os povos numa única sociedade, em resposta às dificuldades de integração, após a resolução do drama do “blip” de Thanos, nos filmes dos Vingadores, em que todas as vítimas desaparecidas, voltam a vida de forma tardia, desestruturando ainda mais, governos e cidadãos.

O peso da responsabilidade do Sam em substituir o Capitão ganha novos contornos com a questão racial e o inevitável questionamento. Pode um homem negro assumir o manto de Capitão América? Intimidado, Sam opta por tentar preservar a integridade de seu amigo e herói, rejeitando a missão de substituir o Capitão. A nobre atitude abre espaço para o governo comprar a ideia, escolhendo um militar de carreira, dedicado e comprometido. O novo Capitão ou John Walker (Wyatt Russell), um personagem vestido também de soberba, por representar o homem branco e o herói tradicional, auxiliado por seu companheiro militar, Lemar Hoskins ou Estrela Negra, seu amigo negro. Apesar de mostrar uma legítima vontade de acertar como herói, o novo Capitão projeta, de relance, uma sombra de que esconde alguma sujeira oculta do público, dentro e fora da série. Como curiosidade, Wyatt Russell é filho do astro Kurt Russell, visto em produções da Marvel como Ego, em Guardiões da Galáxia 2 (2017).

Era uma questão de tempo para os mocinhos entrarem em colisão. Eles se estranham e lutam em descompasso, dando uma vantagem inesperada aos Apátridas que precisam enfrentar seus próprios problemas ao conduzir suas missões, sobreviver, fugir, defender a causa, enquanto precisam confrontar um inimigo oculto conhecido como o Mercador de Poder. De alguma forma, os Apátridas, liderados por Karli Morgenthau (Erin Kellyman), conseguiram o soro do Super Soldado que deu os poderes ao Capitão América original, dificultando a luta dos mocinhos para enfrentar os terroristas. Tal perseguição e confronto move toda a trama. Nisso, a Marvel entrega na série, elementos vistos com sucesso nos quadrinhos, heróis em conflito e vilões com causas a defender, além da mera vilania.

A série transcende sua proposta de entretenimento quando tornam os Apátridas, não apenas vilões, mas extremistas focados em um ideal de mundo unificado e sem fronteiras, representando refugiados e etnias perseguidas, muitas vezes injustiçadas e abandonadas que existem na realidade. O grupo pode ter errado nas escolhas, mas seus motivos são fundamentados. Outro fator sempre presente é a delicada questão racial, como espelho de fatos reais ocorridos, em situações destacadas em momentos sutis (ou não), na série, como a abordagem policial contra o Falcão, as negativas burocráticas do banco para a família de Sam ou nas chocantes revelações Isaiah Bradley (Carl Lumbly), sobre a tentativa fracassada do Governo de substituir o Capitão América, por meio de experimentos ocultos que resultou em sua prisão injusta de décadas, gerando muito ódio e ressentimento. A dor de Bradley representa todo o sofrimento dos afro descendentes nos EUA.

Nem tudo são pontos altos na série. A presença do Barão Zemo é cercada de atropelos provocados pelo roteiro, apesar do ator Daniel Brühl sustentar bem o personagem e fazer uma dancinha digna de meme. A fuga simplista da prisão pelo vilão em Berlim, sem qualquer consequência diplomática pelo fato de dois norte-americanos, Sam e Bucky. em missão militar, terem visitado o Barão antes da fuga. Se era tão fácil para o Barão fugir, ele precisava esperar anos até receber a visita dos “mocinhos” da série para isso? O mordomo do Barão fica à espera com um jato particular pronto para decolar, num aeroporto clandestino, por toda a eternidade prevista da prisão perpétua do terrorista Zemo, até que o chefe decida fugir? Sam e Bucky confiam ingenuamente no traiçoeiro Barão até para aceitar viajar no avião do vilão? O Barão finge ser digno da confiança, entre auxiliar naquilo que prometeu e agir livremente em nome de seus interesses ocultos. Entretanto, mesmo quando em fuga, facilita ser encontrado como se ainda guardasse um ás na manga que não aparece na série. Longe dos olhos dos protagonistas, Zemo mostra suas reais intenções, agindo para atender seus próprios objetivos ocultos.

A extremista Karli Morgenthau, por sua vez, tem ótimo desenvolvimento. Conhecemos o contexto dela, motivos, inimigos, aliados, quem ela defende e a tragédia como força motriz de suas ações. É salutar e nobre, a atitude do Falcão ao tentar se aproximar de Karli, dialogar, tentar entender o lado dos Apátridas, buscar uma compreensão, uma convergência. Em produções de ação, essa atitude é até rara. Em geral, os conflitos são tratados unicamente pela violência. Ver o protagonista buscar meios de entendimento com seu oponente é louvável. Mas todo o esforço é descartado no momento em que o novo Capitão América chega para enfrentar a líder dos Apátridas. Ele não busca diálogo, nem entendimento. Só quer vencer pela força. Só quer derrotar a rival. 

A cidade de Madripoor é trabalhada apenas como destino exótico típico dos filmes de James Bond que só servem de complemento à trama, mais do que as expectativas provocadas nos leitores de quadrinhos que sabem as possibilidades do que poderia ser retratado na série, com relação a cidade. É nela que encontramos a ex-agente da Shield, Sharon Carter (Emily VanCamp), antiga aliada do Capitão América original e sobrinha de Peggy Carter, por sua vez, criadora da agência de espionagem da Marvel. Sharon representa o legado de sua tia, destacada pela integridade dela nos filmes. Todo esse referencial é esquecido na série, ao mostrar a personagem abandonada nos últimos anos que assumiu uma postura de renegada, líder mafiosa, com a desculpa de se tratar de luta pela sobrevivência, numa cidade dominada por organizações criminosas. A necessidade dos roteiristas em sempre subverter suas tramas e surpreender o público, sobrou para a Agente 13. A princípio, Sharon apoia as ações dos protagonistas, mas também demonstra defender seus próprios interesses. Mas a transformação da personagem não é explorada na série. Esse fato torna-se uma lacuna imperdoável. Ainda mais, com os desdobramentos da trama para Sharon e a introdução de outro vilão, o mercenário Batroc (Georges St. Pierre).

A entrada das guerreiras Dora Milaje da nação Wakanda, no conflito, rende grandes cenas de lutas, inclusive com revelações importantes sobre o passado de Bucky e o surpreendente triunfo das guerreiras em combate contra o Soldado Invernal, quando uma delas desarma o braço biônico de Bucky para a surpresa do próprio personagem. A escalada de violência entre o Capitão e os Apátridas resulta numa tragédia que aumenta a pressão sobre John Walker. Ele não vê outra saída senão tomar o soro do Super Soldado, assim que tem a chance, resultando em mais impacto psicológico. Descontrolado pela ira, Walker toma uma atitude impactante contra um dos terroristas, em praça pública, diante de todo o público. A cena, uma das mais impactantes de toda a série, tem um significado ainda mais amplo ao destacar o escudo maculado, sujo, corrompido.

Perto do fim, a série adota um respiro, antes do conflito apoteótico. Serve de preparação para os personagens. As consequências para as ações do Capitão, o treinamento do Falcão para o combate que evoca os bons momentos da franquia Rocky Balboa. A chegada da grande comediante Julia Louis-Dreyfus como a Baronesa Valentina que, na série serve apenas para instigar a curiosidade sobre ela. Pouco se sabe sobre a Baronesa. Mas a introdução da personagem sugere futuras participações em produções seguintes. Vemos ainda uma sequência de tirar o fôlego. A luta pelo escudo envolvendo o Capitão, Falcão e Bucky, o confronto decisivo contra os Apátridas, em várias frentes, o encontro entre Sharon, Karli e Batroc com revelações inesperadas. Muita coisa acontece, sem prejudicar o entendimento geral.

Sam demonstra um amadurecimento ao assumir o manto do icônico amigo, com um uniforme preparado em Wakanda. Diante de algozes e vítimas, Sam expressa um discurso, muito atual, que dialoga diretamente com o espectador e antecipa eventuais críticas contra suas escolhas. Dialoga com a classe política para criticar as decisões burocráticas e a postura indiferente, diante do sofrimento da população. E, para fazer justiça, Sam celebra um momento especial na vida de Isaiah Bradley. Um momento redentor. Aliás, a série se preocupa em trazer a redenção para alguns personagens. 

Como sempre, a Marvel planta suas sementes e o público precisa aguardar as próximas produções do estúdio para ver esses desdobramentos pendentes. Como a Baronesa Valentina que abre novos caminhos para John Walker, enquanto, na cena pós crédito, a agente Sharon Carter conquista sua redenção, mas assume uma postura questionável. O que é lamentável para a personagem ou algo que só poderá ser explicado no futuro, talvez, na próxima série Invasão Secreta. 

Apesar de seus problemas, a série Falcão e o Soldado Invernal corresponde às expectativas. Entrega uma trama envolvente com muita ação e momentos emocionais, mesmo com algumas situações mal desenvolvidas ou exageradas, o que é típico do gênero. Os fãs da Marvel não tem do que reclamar. Por outro lado, a série vai além de um produto de entretenimento por pontuar mensagens diretas e críticas sobre a nossa realidade, mesmo com a embalagem da fantasia. Atente que, no último momento, a série até muda de nome, alinhado ao que ocorre na trama. Um triunfo da Disney Plus. Que venham mais produções da Marvel. Serão sempre bem vindas.

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