Jojo Rabbit (2019) | Crítica

Poucos se arriscam a realizar uma comédia com um tema tão penoso e antagônico quanto a guerra, pelo imenso desafio. Como abordar os horrores do conflito? As perdas de vidas humanas? A prepotência e os preconceitos dos governantes e de seus subordinados? Como apresentar a violência sem o risco de banalizar? E as vítimas? Os abusos? E todo o sofrimento? Veja prévia:

O diretor Taika Waititi abraçou o desafio e conseguiu a proeza, com seu filme Jojo Rabbit (2019), entrando no seleto panteão de nomes como Charles Chaplin (O Grande Ditador, 1940), Stanley Kubrick (Dr. Fantástico, 1964), Mel Brooks (Primavera para Hitler, 1967), Robert Altman (Mash, 1970), o Trio ZAZ, David Zucker, Jim Abrahams, Jerry Zucker (Top Secret!: Superconfidencial, 1984), Roberto Benigni (A Vida é Bela, 1997) e Ben Stiller (Trovão Tropical, 2008).

As demais obras adotaram abordagens diversas para alcançar o humor. Seja no tom de deboche, o pastelão, o nonsense, a sátira, a crítica ácida, a anarquia, o humor negro. Waititi utiliza todo o leque de opções, em maior ou menor grau, com grande sensibilidade para subverter as ideias difundidas pelo nazismo, aos olhos de uma criança inocente, mas manipulada sob o manto da juventude hitlerista. O jovem Jojo, interpretado com sagacidade pelo estreante Roman Griffin Davis, de tão embebido de propaganda nazista, projeta como amigo imaginário, o Fuhrer em pessoa, Adolf Hitler, interpretado de forma exagerada e caricatural pelo próprio diretor Waititi.

Baseado no romance Caging Skies (algo como Céus Enjaulados), da escritora neozelandesa, Christine Leunens, Waititi adota a paródia anárquica para ridicularizar o cotidiano nazista, com muitas doses de humor negro, desde o início do filme, na sequência do acampamento que evoca alegremente, aquelas comédias adolescentes dos anos 80, como se as atitudes dos personagens e as atividades envolvendo as crianças no filme, como queimar livros, atirar em animais ou brincar com granadas fossem banais e inocentes. A estratégia é provocar o desconforto do espectador através do riso, reforçando como aquelas atitudes são absurdas que, infelizmente, foram inspiradas na realidade daquela época. As atuações desengonçadas do Capitão Klenzendorf (Sam Rockwell) e da Fraulein Rahm (Rebel Wilson) apenas reforçam e amplificam as situações grotescas.

Em oposição a esse cenário, a relação entre Jojo e sua mãe Rosie, com a atuação firme e sensível de Scarlett Johansson (A Viuva Negra, nos filmes da Marvel) é bem construída e retratada com emoção e delicadeza. Assim como a descoberta do garoto sobre a jovem judia Elza (Thomasin McKenzie), escondida em sua casa, remetendo a clássica história real da jovem refugiada Anne Frank. A descoberta de Elza sob seu teto faz com que o garoto comece a questionar suas convicções e, até mesmo, confrontar seu Fuhrer imaginário,como um processo de amadurecimento. Mesmo quando o líder nazista surge histérico, em sua versão após os incidentes do cerco em Berlim, e tenta forçar o garoto a retroceder pelo medo.

A oposição entre a inocência infantil e horrores da guerra é magistralmente trabalhada no filme italiano A Vida é Bela, em que o pai procura proteger o filho de traumas, ao disfarçar as atrocidades cometidas como se fosse uma grande brincadeira. Em Jojo, a mãe procura incentivar o filho também num tom lúdico, embora secretamente atuasse para confrontar. O amadurecimento forçado de Jojo ajuda o garoto a lidar os resultados trágicos da guerra em sua vida e a tomar decisões mais racionais, mesmo contradizendo com a ideologia predominante. Diante de desafios, os jovens protagonistas encontram apoio de onde menos se espera.

Por fim, a obra de Waititi, conhecido por Thor Ragnarok, se transforma num extraordinário líbelo contra o nazismo, o fascismo e o preconceito, em tom de deboche, sarcástico e satírico, numa experiência que merece ser vivenciada para não deixar as novas gerações entenderem aquele período de forma distorcida ou minimalista, como uma nota no rodapé da história.

Classificação:

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