MAID – 1ª Temporada (2021) | Crítica

Via de regra as produções artísticas não possui obrigação alguma com a verdade mas há de convir que extrair a nossa realidade transformando-a em filmes e séries é no mínimo empático, denso, reflexivo, na mesma medida que é assombroso. “MAID” é uma daquelas grandes surpresas quando avistamos o mundo real, e tentamos imprimi-la no audiovisual.

Criado por Molly Smith Metzler, e com produção de Margot Robbie (“O Esquadrão Suicida”; “A Lenda de Tarzan”) e Tom Ackerley, o programa é inspirada no best-seller homônimo escrito por Stephanie Land, do The New York Times. Desenvolvido pela Warner Bros. Television e distribuído nacionalmente pela Netflix, a série vai muito mais além das armadilhas narrativas e gatilhos expostos na trama. Propõe uma história tridimensional sobre uma sociedade abusiva, misógina e claramente preconceituosa, onde o patriarcado não morreu e não há previsão a curto prazo para tal feito.

Como produto de entretenimento, “MAID” é uma leitura quase que perfeita da realidade. Questionando as amarras sociais e agressões crônicas à mulheres, disfarçadas de costumes e conservadorismo como grita de um grupo dominante. Porém, como série possui lá as mazelas, seja na fragilidade das atuações, ou na imperícia técnica entre cenas e capítulos. Como por exemplo, a ausência de química entre seus personagens mais atuantes. Mas, qual dessas duas vertentes importará para mim, responsável pela avaliação de tal produto?! Escolho a história.

Ela se sobrepõe ao espetáculo, contando de maneira quase “sui generis” a realidade brutal de milhares de mulheres vítimas de abusos que vão bem mais longe que o físico, e passam desapercebidos, camuflados em nosso convívio familiar: O psicológico. E esse tipo de agressão é muito mais danoso que físico, pela continuidade quase que ininterrupta dos fatos, que se estendem no tempo e não prescrevem, proporcionando marcas em almas, sob o espectro do incurável.

Alex (Margaret Qualley) possui uma vida modesta ao lado de seu marido, Sean (Nick Robinson) e filha Maddy. E o que antes era uma vida “perfeita”, visitou campos sombrios. Sean tornou-se um homem agressivo e perigoso para o ambiente familiar. Tomada pelo medo e esperança, Alex foge de casa, levando consigo a filha, e tenta encontrar o seu próprio caminho no Mundo, longe do agora, ex-companheiro.

Com uma narrativa brilhantemente sufocante, pontual e ideologicamente forte, o texto entrega o que promete ao público, seja na criação dos ambientes secundários, ou principais. Bem produzido, “MAID” possui cortes ligeiramente bons, aplica ao fictício, o real, o existente, o presente e o marcante. Buscando soluções em meio ao caos, o programa Netflix não erra o tom, mantém a pegada narrativa do começo ao fim, mesmo apresentando alguns erros técnicos. Provocadora, a série não busca o diálogo com as partes conflitantes, mas uma quebra de paradigmas, expondo a dantesca realidade de quem nasceu mulher num mundo machista.

E “MAID” não é só isso. Apesar que o só isso, já é muita coisa. A série busca criar profundidade na relação maternal, criando alegorias ou espelhos de realidades próximas ao espectador, na figura de Paula (Andie MacDowell) e da própria Alex. Apesar dos laços, mãe e filha são antagonistas de uma mesma narrativa. A filha – aquela que conseguiu a ruptura do abuso – , e infelizmente, a mãe que não teve a mesma sorte. Essa inserção dentro do contexto é quase cognitivo e assertivo.

Com uma trilha sonora interessante, de uma boa tecnicidade nas demais categorias, pautado num texto inclusivo e denunciativo, possuindo mais acertos que erros, “MAID” certamente alcançará uma posição confortável no coração dos espectadores e dos críticos, que amam as ideias por detrás das coisas. A série não é sobre o protagonismo da mulher no amor, ou num emprego, ou no ambiente familiar, mas de sua própria vida, senhora de suas próprias ações, detentora de seu futuro. “MAID” deixa bem claro isso em seu discurso, quando convida o espectador à batalha.

 

Classificação:

Veja outras críticas nossas, de produções da Netflix:

A série dramática conta com 10 eletrizantes episódios em sua primeira temporada, que encontram-se exclusivamente na Netflix.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *