Mank (2020) | Crítica

Ainda existe uma nebulosa que paira sobre a obra ‘Cidadão Kane’ e não é possível ter a verdadeira certeza do que o torna um filme bastante intocável na questão de revisita ou revisões. É bem claro que na época do seu lançamento o filme sofreu um boicote por se tratar de uma biografia não autorizada do magnata da impressa (e bem influente em Hollywood) William Randolph Hearst e mesmo depois de se tornar aclamado foi uma pedra no sapato durante toda a vida de todos os envolvidos na produção, principalmente do Orson Welles.

No entanto, o que David Fincher propõe aqui em seu Mank é uma visão diferente daquela que estamos acostumados a observar. Focado no processo de criação do roteirista Herman J. Mankiewicz, o nosso Mank é uma figura cheia de camadas e bastante intenso pela ótica e interpretação Gary Oldman que dá vida a um homem alcoólatra que fica na corda bamba entre a genialidade e a autodestruição. Confira prévia:

O cinema de Fincher é conhecido pela estilização moderna que todos os seus filmes abraçam quando se trata de narrativa, e aqui não se faz diferente quando sua escolha de não tratar a América dos anos 30 como algo retrógrado e sim um reflexo de um passado que se repete constantemente em todas as nuances possíveis.

A persona de Mank é o fio narrativo que nos faz compreender porque Cidadão Kane é um filme tão importante para o cinema norte-americano. A escrita obsessiva do roteirista está totalmente associada a percepção que poucos artistas possuem de entender que a arte é uma questão de posteridade e não só de resultados imediatos. Tanto o roteirista quanto Orson Welles (interpretado intensamente por Tom Burke) sabem que estão mexendo com uma colmeia e que não adianta o que façam serão atacados pelas abelhas dela, mas a visão de que o futuro aquilo será reconhecido os torna obsessivos pelo resultado desejado.

Essa obsessão está presente na forma que é escolhido pelo diretor como conduzir a narrativa. Se estamos falando de um roteirista, fica claro pela forma que o texto se diverte com a metalinguagem como também com as técnicas de contar algo. As poucos mais 2 horas de duração em nenhum momento agridem os telespectadores e até mesmo o excessos de artifícios do roteiro são sempre bem vindos e sabiamente utilizados.

Mank é muito mais sobre a obsessão de um artista que sabe que sua arte tem o poder de destruir na mesma proporção de se elevar do que sobre um roteirista fazendo o roteiro da sua vida. O que Mankiewicz e Welles fizeram foi criar a obra que define bem o que foi e até hoje é a América: a terra das oportunidades e dos interesses.

Classificação:

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