O Irlandês | Crítica

Com uma linguagem didática e inteiramente dinâmica, O Irlandês chegou a Netflix no dia 27 de Novembro, revisitando profundamente a relevância paradoxal da máfia na história americana. A releitura de Martin Scorsese sobre o tema, deixa bem claro que boas histórias, quando aliadas a excelentes atuações podem tornar o cinema mais que atrativo, um divisor de águas culturais, cognitivo e surreal [Veja o trailer].

O Irlandês dialoga com público de maneira pedagógica, quadro à quadro, sobre os reais desdobramentos, envolvimentos da máfia em solo americano. Com um mergulho abissal, mas sem se perder, sobre as relações de poder e dinheiro entre os sindicatos, políticos, policias, instituições públicas e organizações comerciais de alta relevância. Deixando bem claro, a participação de todos no desenvolvimento econômico daquele país, mesmo advindos de um chorume desconcertante, de uma sociedade puritana que em teima empurrar o passado sob o tapete do limbo. E Scorsese faz do filme uma verdadeira obra de arte, realizando um raio-X dilacerante sobre o sistema.

Frank Sheeran (Robert De Niro), também conhecido como o Irlandês, é um ex-soldado condecorado que deixou o seu modesto emprego de motorista de frete por um convite financeiramente vantajoso de Russell Bufalino (Joe Pesci), um dos líderes da máfia local. Frank opta por esse emprego pela coerência com a realidade que vivera no período que serviu, será docemente apelidado de “pintor de casas”, o cara que realiza “serviços sujos” para a máfia.

O trabalho de Sheeran ganha relevância, publicidade e notoriedade dentro da facção criminosa, fazendo-o a se aproximar do líder sindical, Jimmy Hoffa (Al Pacino), e este, possui uma forte influência na política, quer regional, ou nacional. Presente na construção dos principais cassinos de Las Vegas, a importância de Hoffa no cenário americano assombra, dos mais simples aos mais relevantes. Estendendo laços com a classe de trabalhadores e políticos locais até presidentes americanos, e neste meio está o Irlandês. O filme contará didaticamente a escalada hercúlea até o topo de Frank Sheeran, e obviamente, abordar as consequências naturais por suas tomadas de decisão.

O sucesso de O Irlandês não se deve exclusivamente pela coragem de abordar um problema social, mas pelas incríveis atuações de seu vasto e rico elenco. Robert De Niro não está só nessa empreitada, Joe Pesci e Al Pacino também dividem os olhares, com atuações sólidas, intensas e fortes, costurando a boa trama. O filme não é só bem dirigido, como bem escrito pelas hábeis mãos de Steven Zailian e Charles Brandt, mesclado numa trilha sonora clássica. Houve uma preocupação com o espectador em se fazer entender a estória, sem arrodeios, sem loop’s temporais, apesar de possuir quase 3h30min de trama.

Mas nem tudo é perfeito em O Irlandês, Scorsese manteve os mesmos atores, os mesmos rostos para diversas faixas temporais no longa, não abrindo possibilidades para o novo, comprometendo algumas cenas, com frágeis CGI’s, será que não era um bom momento para escalar um outro ator, condizente até com o real? Sabe… Acredito que faltou ousadia a ele, o temor de perder a qualidade nas atuações dos atores supracitados, levou a uma singelo estágio de arrogância, que não comprometeu o filme, mas imaginar que não iriamos perceber, no mínimo é loucura.

O Irlandês também levanta outros debates sobre cinematografia atual, filmes dessa natureza, que remetem ao clássico, não deveriam chegar prioritariamente em boa parte das salas de cinema? Parece que a produção não é sentida pelo público, apenas buscada por uma dada parcela no streaming. Seria o receio pela arrecadação e ou bilheteria? Temos diversas obras primas com baixa arrecadação, que não se pagaram, mas tem o seu valor reconhecido. Sinto que clássicos como esse, deveriam experimentar sim os cinemas, não apenas em salas pontuais, na perspectiva de concorrer a prêmios. E o que é antagônico nessa história, é trazer uma produção como essa a Netflix, mas pedir ao público para não ver no celular, como Martin Scorsese fez.

Certo mesmo é que O Irlandês chegou com uma postura sólida, densa, inteiramente pedagógica, clara e concisa prioritariamente a Netflix. Para os clientes do streaming, e amantes de cinema, foi um ganho indescritível. Beirando a perfeição – como a opinião do Rotten tomatoes -, mesmo apresentando pequenas mazelas, a trama lhe envolverá e entregará o submundo da política e máfia americana extremamente bem organizado, “fechadinho”. Bem construído, bem pensado, O Irlandês concorrerá certamente em algumas das principais categorias do Oscar 2020, e merecido.

Classificação:

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