Onde estão os heróis nos dias de hoje?

Vivemos hoje um mundo mais cínico. Mais irônico. Menos inocente. Anti-heróis como retratados nas séries The Boys (2019), Watchmen (2019), Justiceiro (2017) e filmes John Wick – De Volta ao Jogo (2014) e Bravura Indômita (2010) são muito mais celebrados. Por isso, os heróis precisam ser super se quiserem chamar a atenção. Os super são divididos entre dois grandes times, baseados nos quadrinhos das editoras norte americanas. Tem o time da Marvel, com Capitão América, Vingadores, Homem Aranha, X-Men e o time da DC Comics como Batman, Superman, Aquaman, Mulher Maravilha ou Shazam. Fazem enorme sucesso, mesmo havendo altos e baixos, entre os filmes do gênero.

Lembrando que Capitão América – O Primeiro Vingador (2011), com uma abordagem mais heroica e inocente, não teve tanto apelo, precisou de Capitão América 2 – O Soldado Invernal (2014) e Capitão América – Guerra Civil (2016), intensificando conflitos e com abordagem mais ambígua, para conquistar o grande público. O mesmo ocorre na oposição entre a repercussão de Superman – O Retorno (2006), mais heroico e O Homem de Aço (2013). Num recado em que o bom mocismo não rende tanto em bilheterias como uma abordagem mais cínica e ambígua.

O grupo Guardiões da Galáxia (2014) é formado por anti-heróis, disfuncionais, heterogenios e harmônicos sobre suas diferenças que fez grande sucesso. Esquadrão Suicida (2016) e suas sequências chamam atenção por retratarem vilões obrigados a agirem como heróis por imposição. O louco e agente do caos, Coringa (2019) rouba a cena todas as vezes em que aparece nas telas, ofuscando o próprio Batman. Sua amante Arlequina (2020) tornou-se um arquétipo de anti-heroína feminina, mesmo pelas razões erradas. Enquanto Deadpool (2016) é o anti-herói que celebra a anarquia.

Se não são super, tem que ser Jedi ou Caçador de Recompensas – Star Wars; ultra agentes – James Bond, Jason Bourne, Jack Bauer, Atômica; ladrões glamourizados – Velozes e Furiosos, Tantos Homens e um Segredo, Lupin; mega policiais – Busca Implacável, Tropa de Elite, Máquina Mortífera, CSI, John Wick; hiper personagens em períodos históricos – Sherlock Holmes, Jack Sparrow, General Maximus, Jean Valjean; heróis de outros universos – Senhor dos Anéis, Game of Thrones, Duna; ter over inteligência – Mente Brilhante, Sheldon Cooper, Gregory House, Tony Stark, Shuri; Ligados a magia, mitologia ou o sobrenatural – Harry Potter, Sobrenatural, Dr. Estranho, Percy Jackson, Animais Fantásticos, The Witcher, Stranger Things; Saber artes marciais desde o berço – Matrix, Cobra Kai, Clã das Adagas Voadoras. Há pouco lugar para o herói comum na cultura pop, hoje em dia, como havia no passado. A tendência é atrofiar. Deixar os exemplos e referências morrerem. Ficarem para trás.

Os mundos distópicos enchem mais os olhos do público, em detrimento das utopias. Jogos Vorazes (2012), Mad Max: Estrada da Fúria (2015), O Livro de Eli (2010), Distrito 9 (2009), As Crônicas de Shannara (2016), Eu Sou a Lenda (2007), The Walking Dead (2010), Planeta dos Macacos – A Origem (2011), Expresso do Amanhã (2020). Quanto as utopias, elas ficam limitadas ao avanço da descrença junto ao público. A descrença de um futuro mais justo. A descrença de um possível futuro melhor. Gêneros como Terror e Catástrofe ganham mais força do que dramas ou comédias. A dimensão humana se apequena. O mundo de hoje busca e precisa de extremos, exageros e absurdos.

Isso se reflete em mais individualismo das pessoas. Mais divergências, mais antagonismo, mais narcisismo, mais egoísmo, mais diferenças irreconciliáveis, mais descrenças e mais o culto a futilidades, a imagem, a hipersexualidade. Maximizada pela internet e pelas redes sociais em que a multiplicidades de vozes grita em dissonância, em discordância. Já disse Renato Russo: “Falam demais, por não ter nada a dizer”.

Os heróis estão a nossa volta e poucos percebem. Nem os próprios heróis. São tão subvalorizados socialmente que se encolhem nas sombras de suas rotinas. São policiais, médicos e enfermeiros, especialmente nesses tempos de pandemia, são professores, são cientistas, são artistas que produzem cultura. Mas a sociedade não os enxergam. Cada vez menos filmes e séries os enxergam.

A sociedade confunde heróis com jogadores de futebol, modelos, beldades da televisão e pessoas de sucesso. Isso, desde que existe mídia, em todas as suas formas. Agora, sugiram novos supostos heróis. Youtubers, jogadores de games, criadores de aplicativos e participantes de reality shows que foram escalados pela medida de suas popularidades ou anônimos escolhidos para representar camadas de um extrato da sociedade. Não quer dizer que não possam ser heróis. Por conquistarem feitos notáveis. Por alcançarem um alto nível de excelência. Por difundirem ideais louváveis. Já a grande maioria está longe de ser. Basta se perguntar, o que cada um fez para chegar onde chegou? Ajudaram a sociedade ou o próprio bolso? Merecem toda a atenção que recebem?

Uma vez, o apresentador Pedro Bial classificou os participantes do programa Big Brother como heróis. Puro marketing. Heróis, por quê? Foram escolhidos com o objetivo específico de manter o máximo de espectadores na frente da tela, hipnotizados. Participam de uma grande gincana, conversam um monte de banalidades, ignoram ética ou moral na busca de um prêmio, mantêm ou desfaz amizades e amores ao sabor da audiência. Se esses são os heróis da nossa sociedade, é um reflexo de nossa decadência.

Quando o escritor britânico George Orwell criou o conceito que ele batizou de Big Brother, retratou como um grande vilão social para nos alertar e impedir a criação dessa ameaça no futuro. Mas o futuro chegou e o Big Brother também. Sendo um grande sucesso e um instrumento de entretenimento de massas. Orwell não iria gostar nadinha de saber desse Big Brother atual.

Se até as crianças aprendem cinismo e ironia com Shrek (2001) ou com Simpsons (1989), os adultos já nascem formados nessa ciência. Mesmo assim, o mundo precisa de heróis, mais do que nunca. Sejam super ou comuns. De outros mundos e dimensões, bem como no nosso mundo. Help!!!

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