Reflexões sobre a arte e a cultura pop

O que é arte? Vou te responder de muitas formas. É toda a expressão artística. Tudo o que o ser humano expressa. Todo o registro que fica ou momento que se perde nas ondas do tempo. Uma forma de comunicação mais sofisticada que utiliza símbolos mais complexos para buscar uma compreensão e um entendimento além da expressão aparente. 

É toda pegada humana, mesmo aquela distante na lua. É todo monte de barro moldado. Aquele borrão de tinta no desenho de uma criança. O spray espalhado no muro. É cada palavra expressa, esculpida na argila, riscada na porta do banheiro sujo, datilografada, impressa num livro, digitada no whatsapp, mesmo que seja apagada. É toda nota tocada ao acaso, com ou sem plateia, com acordes perfeitos ou dissonantes. Batendo lata na ladeira de Olinda ou tocando violoncelo na orquestra filarmônica. É o grito de gol. O passo de tcha tcha tcha. A pitada de tempero na panela. O papel amassado. O pingo da chuva que reflete o sol numa tela de arame. Arte é tudo. Está em todo lugar. Está em mim. Em você. Está aqui no SiriNerd.

A arte, como um tipo de comunicação, precisa de um autor. Mesmo que seja anônimo. Um suporte ou meio em que se propaga ou se perpetua. E também de um observador, ainda que seja o próprio autor. Mesmo que o observador não compreenda e tire suas próprias conclusões. A arte está presente. A arte, inclusive, vem antes da comunicação. Não é preciso saber ler e escrever para fazer arte. Não é preciso entender. Pode ser a expressão de um animal ou objeto. Pode vir da natureza ou de um passado remoto.

Estão me acompanhando até aqui? Já sabem. Tudo é arte. Qualquer música. Qualquer livro. Qualquer filme ou história em quadrinhos. Qualquer desenho. De qualquer época ou lugar. Tudo mesmo. Mas a arte precisa dialogar. Estabelecer contato. Servir de ponte entre autor, obra e observador. Não adianta, o anel mais belo de Saturno que ninguém vê. O poema mais denso de Sófocles que ninguém lê. O palácio mais suntuoso de Luxor enterrado na areia. A partitura mais genial de Mozart rasgada e jogada fora. A página mais psicodélica de Jack Kirby não publicada. A arte não se completa. Não dialoga. Não perpetua.

A arte, considerada erudita, é pautada em clássicos, de interesse de estudiosos, profissionais e especialistas de cada área. Combina com o gosto de pessoas sofisticadas, refinadas. Pessoas que entendem, valorizam e vivenciam os clássicos. Referência que acumula novas obras com o passar do tempo. Para uma obra ser considerada um clássico, precisa passar no teste do tempo, além da soma de vários critérios, sejam estéticos, emocionais, artísticos, técnicos, criativos e sociais. Por isso, uma obra precisa ser reavaliada com o tempo, ao atravessar gerações e ter, pelo menos, 30 anos, para ser considerada um clássico. Antes desse tempo, seria uma avaliação prematura. Um clássico, em geral, é uma obra que ajudou a quebrar paradigmas, inovou, impactou em sua época. E pode ter contribuído para estabelecer novos paradigmas que precisam ser confrontados pelas gerações seguintes. Nem toda obra antiga é clássica. 

A arte, considerada popular, é pautada na tradição de costumes criados e mantidos por um povo que pode, ou não, ser também clássica. Em geral, há um conjunto de regras, padrões, normas relacionados a obra ou expressão que são reproduzidos por costume, como parte da identidade cultural. É difícil admitir inovação para a arte popular. Quanto mais inovação, mais se distancia das tradições, podendo até sofrer rejeição dos participantes ou observadores. Pessoas que se identificam com as tradições, respeitam e exigem preservar a obra e suas características. Não há interesse em mudanças, evoluções ou questionamentos. Para eles, a obra ou expressão deve permanecer intocada.

A arte, considerada pop, apesar da tradução do inglês pop ser popular, mantém uma clara distinção em relação a arte popular. Enquanto uma se sustenta pela tradição, o pop reflete o sucesso em escala ampla, de um local ou época específicos. Gera muito dinheiro, audiência, vendas, desdobramentos, sucesso. Há uma grande identificação do público com a obra. É quando vários elementos extrapolam o escopo da obra e se transformam em símbolos, falas e comportamentos, compreensíveis para o público geral. Passam a integrar a Cultura Pop. 

A arte, considerada do povão, não é valorizada pelo público geral. É criticada, por ser considerada de baixa qualidade. Seja por motivos estéticos, temáticos ou de conteúdo. Mesmo assim, as obras fazem sucesso em comunidades mais humildes ou em nichos específicos de público. Com o tempo, tais obras ou gêneros podem despertar o interesse de outras camadas da população. Mesmo mantendo o mesmo padrão qualitativo. Ou uma obra pode ganhar nova roupagem mais sofisticada e atravessa as fronteiras de sua origem.

Se uma obra, qualquer que seja, é lançada, faz sucesso ou fracasso, o fenômeno passa a ser analisado por estudiosos da área. São os críticos que apontam os valores de cada obra. São curadores. Identificam as características positivas e/ou negativas. Os melhores e os piores. Servem como parâmetro para o público interessado. Ajudam o público a fazer melhores escolhas. Como as análises realizadas pela equipe que alimenta o portal SiriNerd.

Cada obra precisa respeitar as convenções e regras mínimas em suas áreas, gêneros, subgêneros ou nichos de mercado. Entretanto, quanto mais a obra se prende às convenções, padrões, dogmas estabelecidos ou adota aqueles elementos repetitivos que chamamos de clichê, a obra terá menor valor artístico e criativo. Considerada uma obra convencional. Por outro lado, quanto mais a obra inova, surpreende, rompe com seus parâmetros, terá um valor artístico maior. Será celebrada por suas qualidades. Considerada uma obra de vanguarda.

As relações entre diferentes obras podem ser entendidas como:

    • Convenções de um Gênero – São elementos básicos semelhantes, presentes nas obras de um gênero ou subgênero, estabelecidos por obras clássicas desde as pioneiras ou incorporados depois como parte da evolução do gênero.
    • Clichê – Um elemento, além das convenções, que é aproveitado em uma nova obra, mantendo o mesmo contexto comum a várias obras. Se um clichê é amplamente reproduzido em sucessivas obras pode se tornar uma nova convenção do gênero.
    • Referência – Um elemento incorporado numa obra nova que poderia ser classificado como convenção ou clichê de um gênero ou mesmo uma inovação de uma obra anterior, entretanto é utilizado por uma obra nova num contexto totalmente novo, sendo possível identificar a fonte, de uma obra original.
    • Copia – Um elemento incorporado numa obra nova que repetiu o elemento de uma obra anterior, no mesmo contexto, da mesma forma, no mesmo gênero. É uma mera cópia.
    • Adaptado – Quando uma obra nova reproduz as ideias de uma obra anterior, com o máximo de fidelidade possível. Mas sempre acontecem ajustes de adaptação. Não é possível ser cem por cento fiel a obra original. O original pode ser de um formato para o outro ou de um suporte para o outro.
    • Baseado – Quando uma obra nova reproduz alguns elementos de uma obra anterior, algumas ideias básicas ou parte delas. Mas as mudanças são mais amplas. Mesmo assim, ainda é possível reconhecer os elementos da obra original.
    • Inspirado – Quando uma obra nova reproduz alguns elementos de uma obra anterior, algumas ideias básicas ou parte delas. Mas as mudanças são radicais. Pode ocorrer uma mudança estrutural de época, lugar, gênero. É difícil reconhecer a obra original.

Não existe fórmula de sucesso para obras artísticas, mas o uso equilibrado entre parâmetros estabelecidos e dosagens de inovação, tende a tornar uma obra, um grande sucesso. Enquanto uma obra plenamente inovadora, muitas vezes classificada como experimental, tende a afastar os espectadores, por não conseguir estabelecer um diálogo, seja com seu público alvo ou com um público mais amplo. Mesmo assim, sabe-se que é muito difícil produzir uma obra cem por cento original. Sempre virão misturadas com elementos de outras fontes.

O experimental pode enfrentar duas consequências. Se estabelecer um diálogo com o público e fizer sucesso, trará novos paradigmas para futuras obras. Se o público não se identificar e for um fracasso, será uma obra de culto, com um público admirador restrito ou uma obra odiada por críticos e público.

As manifestações artísticas são subdivididas em:

    • Primeira Arte – Artes Sonoras – Som;
    • Segunda Arte – Artes Cênicas – Movimento; Teatro;
    • Terceira Arte – Pintura – Cor;
    • Quarta Arte – Escultura – Volume;
    • Quinta Arte – Arquitetura – Espaço;
    • Sexta Arte – Literatura – Palavra;
    • Sétima Arte – Artes Audiovisuais – Audiovisual, integra cinema e televisão;
    • Oitava Arte – Fotografia – Imagem;
    • Nona Arte – História em Quadrinhos – Cor, palavra, imagem;
    • Décima Arte – Video Games – Integra os elementos de outras artes;
    • Décima Primeira Arte – Arte Digital – Integra artes gráficas computadorizadas 2D, 3D e programação.

Por várias décadas, a lista das manifestações classificou até a Sétima Arte. Depois, ficou decidido pela criação de artes complementares. Isso resultou em algumas distorções. Por exemplo, não poderia haver Cinema, sem a invenção da Fotografia. Portanto, a Fotografia deveria vir antes do Cinema. O caso mais grave envolve as Histórias em Quadrinhos. A estrutura básica da Arte Sequencial, tendo quadros de desenhos que formam uma sequência, com balões de narrativas, diálogos e símbolos, existe desde a criação da escrita. Como exemplo, temos os famosos painéis nas paredes dos palácios faraônicos do antigo Egito. A História em Quadrinhos deveria vir logo após a Literatura e deveria ser, portanto, a Sétima Arte, mantendo a Fotografia como Oitava Arte e o verdadeiro lugar das Artes Audiovisuais (Cinema e TV) deveria ser a Nona Arte. Enfim, isso é assunto para debate.

Embora tudo seja arte, existem obras celebradas por suas qualidades. São obras de nível artístico superior, enquanto outras, são de nível artístico inferior. E tem as obras tão criticadas, tão ruins que são classificadas como Trash (Lixo). Mais uma vez, é preciso que os estudiosos da área, os críticos, possam analisar e apontar o resultado de seu diagnóstico.

Quanto a qualidade das obras, precisamos atentar para duas expressões:

Obra Prima – O conceito de obra prima confunde as pessoas. Alguns dizem: Tal autor escreveu várias obras primas. Ou tal atriz realizou vários filmes obras primas. Tal uso da expressão é inadequado. Obra prima ou Magnum Opus representa uma obra máxima, a mais perfeita, de mais alto nível, a mais qualificada, a melhor em um gênero, de um autor, de um artista, de uma época. É preciso indicar um recorte. Por exemplo: Tal filme é a obra prima de tal diretor ou artista. Ou a obra prima da comédia dos anos 80. Ou a obra prima literária de tal país. É como a síndrome de Highlander. Só pode haver uma obra prima em cada recorte. Portanto, não é possível classificar que todos os livros da trilogia Senhor dos Anéis são obras primas de JR Tolken, porque só pode haver uma.

Mas há uma outra possibilidade relacionada ao recorte. É possível classificar vários filmes de um mesmo diretor, através do recorte temporal. Uma obra prima dos anos 70. Outro, dos anos 80. Outro, dos anos 90. Pode haver ainda outro tipo de recorte, sendo de gênero. O filme de tal atriz é uma obra prima da comédia e outro, uma obra prima do drama, etc.

Hour Concours – Significa fora de competição, fora de concurso. Tal classificação pode ocorrer por dois motivos. O primeiro motivo é negativo. Quando uma obra é desclassificada ou, por alguma razão, impedida de concorrer, por quebrar regras, por desrespeitar, por apresentar um erro grave. 

O segundo motivo é muito positivo. Quando uma obra alcança tal nível de qualidade, de excelência, de impacto que está muito além de qualquer outra obra competidora. Nem se compara aos concorrentes. Extrapola os critérios de avaliação. Está muito acima do necessário para alcançar o prêmio máximo. Então, a obra será Hour Concours.

Por fim, lembre-se. O meu texto também é arte. Mas cabe a você avaliar e classificar se é uma arte de nível superior ou inferior. Agradeço a atenção.

 – The End –

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