O Rei Leão: Raízes da África, Inglaterra, Dinamarca e polêmica com Japão | Mangue POP

“Naaaaaaaaaaaaants ingonyama bagithi Baba”

“Sithi uhm ingonyama”.

Confesse! Em algum momento de sua vida, você tentou cantar a icônica e inesquecível introdução da animação O Rei Leão (The Lion King), seja na versão de 1994 ou na refilmagem de 2019, para a música Círcle of Life (no Brasil, Círculo Sem Fim), de Elton John e Tim Rice. Embora a letra da melodia, indicada ao Oscar e ao Grammy, seja em inglês, o curto trecho da introdução foi composto na língua Zulu. A poderosa voz da cantora estadunidense Carmen Twillie, acompanhada pelo coral do músico sul africano, Lebo M, transporta o público, em poucos segundos, para as savanas da África e a melodia cresce, nas vozes e instrumentos, em sincronia com o nascer do sol. Confira adiante, a letra do trecho da música em Zulu e sua tradução. Esse foi um dos vários incríveis elementos da cultura africana celebrados nas animações do Rei Leão, produzidos pela Walt Disney Company. Após o estrondoso sucesso da clássica animação de 1994, o estúdio resolveu apostar numa versão fotorrealista, lançada em 2019, que conta a mesma história, com os mesmos personagens, transformada em novo sucesso, apesar das ressalvas e críticas negativas.

Polêmica com o Japão – Apesar do inegável sucesso de Rei Leão para as várias gerações do público infantil, adolescente e adulto, poucos sabem que a produção da Disney foi envolvida numa polêmica acusação de plágio que nos remete ao Japão. A série Kimba, o Leão Branco (Jungle Taitei, tradução, O Imperador da Selva), lançada em mangá – quadrinhos japoneses, do mestre Osamu Tezuka, em 1950, foi adaptada como uma série anime para a TV, com 52 episódios, em 1966, produzida pelo estúdio Mushi Productions, do próprio Tezuka que, depois, foi lançada nos EUA e também no Brasil. Foi o primeiro grande sucesso do artista, considerado o Walt Disney japonês, autor de outras obras igualmente memoráveis como Astro Boy, Vingadores do Espaço e A Princesa e o Cavaleiro. Curiosamente, Tezuka admitiu que se inspirou no clássico da Disney, Bambi (1942), para criar o Leão Branco. O círculo sem fim da criatividade.

Na trama resumida da saga do Leão Branco, Panja (Caesar, no original japonês) um leão branco, foi o rei da selva até ser emboscado por caçadores, na tentativa de salvar sua amada, Eliza (Snowene,no original). A leoa é levada prisioneira num navio, onde precisa dar a luz a seu filhote, Kimba (Leo, no original). Ela transmite ao filhote, os ensinamentos de Panja, mas após uma tempestade, Kimba fica sozinho e precisa partir numa jornada para retornar a África e recuperar o trono. Para isso, ele precisa enfrentar o leão Bubu, protegido pelas hienas Dick e Bow e a pantera negra Tot. Enquanto conta com a ajuda de Poly (Koko, no original), um papagaio, Bucky (Tomy, no original): uma jovem gazela, Daniel (Mandy Mandrill, no original), um mandril sábio. tipo de Babuíno, e a leoa Léia (Liya, no original).

Ao comparar as obras japonesas e norte americanas, é possível observar que não são exatamente iguais, mas possuem tantas similaridades, em tramas e personagens, que fica difícil negar a influência do trabalho de Tezuka sobre o sucesso da Disney. A controvérsia foi apontada em diversos sites e vídeos, com destaque para as imagens divulgadas no site Bored Panda e no vídeo do You Tube, compilado e divulgado pelo canal Alli Kat, mostrado adiante. Observe as imagens a seguir e tire suas próprias conclusões. A coluna da esquerda apresenta cenas de O Rei Leão, enquanto as da direita contém cenas de Kimba – O Leão Branco. O próprio nome dos protagonistas Kimba e Simba nas obras já indica a inspiração da Disney. Além do fato de que a cor escolhida para Simba, no início da produção norte americana, seria o branco.

O alvorecer na savana, a pedra do reino e a família real – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução
Bando de suricatos e aves – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução

Mufasa e seu filhote Simba. O Leão Branco Panja e seu filhote Kimba. O novo rei Scar (Cicatriz) e o novo rei Bubu, também com uma cicatriz próxima ao olho esquerdo – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução

Mufasa e seu conselheiro real, o pássaro Zazu. A rainha leoa Eliza e seu conselheiro, o papagaio, Bucky. Os jovens leões Simba e Nala brincam numa área perigosa. Enquanto Kimba brinca com Léia – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução

As hienas Shenzi, Banzai, além de Dick e Bow querem atacar. Pai e filhote, Mufasa e Simba, observam o horizonte. Pai e filhote leões brancos, Panja e Kimba observam o horizonte – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução

Pai e filhote, Mufasa e Simba, numa cena triste. Pai e filhote leões brancos, Panja e Kimba numa cena triste. Um divertido javali nas duas obras – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução
Dois vales arborizados. Rafiki, o sábio mandril, busca por Simba. Daniel (Mandy Mandrill, no original), o sábio mandril encontra Kimba – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução
Mufasa surge nas nuvens. Panja surge nas nuvens. Simba confronta Scar. Kimba confronta Bubu – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução
A luta entre Simba e Scar. A luta entre Kimba e Bubu – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução
Simba / Kimba. Scar / Bubu – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução
Simba abandonado. Kimba abandonado – O Rei Leão (1994)/Disney – Reprodução

A série Leão Branco teve uma continuação, ainda de 1966, Jungle Taitei Susume Leo (Leo, o Leão Branco), com mais 26 episódios e mostra Kimba, na fase adulta, casado com Léia, exibida nos EUA, em 1984. Ainda em 1966, Jungle Emperor Leo foi lançado nos cinemas japoneses, como um grande resumo de toda a primeira série. Em 1989, foi lançada a série As Novas Aventuras de Kimba, o Leão Branco, sem a interferência do criador, Osamu Tezuka, falecido meses antes. Foram mais 52 episódios, sem o mesmo sucesso da série original.

Nos anos 90, a Walt Disney Company realizou a produção de O Rei Leão lançada em 1994 e logo iniciou a polêmica das similaridades com Kimba, o Leão Branco. Entretanto, apesar das claras evidências, os executivos da Disney negaram o plágio afirmando que sua produção é original e que nenhum dos animadores do estúdio, envolvidos na produção, conheciam o desenho japonês. E a polêmica dura até hoje. Por fim, após o grande sucesso de O Rei Leão, foi lançada nos cinemas, a animação Janguru Taitei / Jungle Emperor Leo (O Imperador Leão da Selva, 1997), de Yoshio Takeuchi. Para o público, o lançamento japonês posterior fez parecer que a obra de Tezuka havia plagiado O Rei Leão e não, o contrário. Ainda assim, em 2009, foi lançado o último filme de Kimba, o Leão Branco, chamado Jungle Emperor – The Brave Can Change The Future (Os Valentes Mudam o Futuro), de Gorô Taniguchi.

A família de Osamu Tezuka tentou abrir processo contra a Disney, mas revelaram não ter seguido adiante porque não tinham recursos para bancar os custos judiciais, sabendo que o estúdio Walt Disney dispõe de um exército de advogados (Hienas). O justo seria a menção oficial nos créditos das duas versões de O Rei Leão, de que a obra é uma adaptação de Kimba, o Leão Branco, de Osamu Tezuka. E mais justo ainda, que a família de Tezuka e o estúdio Mushi Productions recebesse participação nos lucros de O Rei Leão, por todas as receitas dos filmes e derivados. Bilheterias, merchandising, exibições na TV Paga e Aberta, vendas em DVD e Blu Ray e disponibilidade em todas as plataformas. Entretanto, fora das telas, nem tudo tem final feliz. Lamentável, Disney.

O vídeo mostrado a seguir, do canal Alli Kat, do You Tube, é focado nas semelhanças entre as obras, com imagens ainda mais impressionantes.

Conexão África – A produção da Disney é marcada por apresentar cenários da natureza, a fauna e a flora da África, bem como aspectos da cultura do continente africano, em muitas referências visuais e musicais. A começar pela abertura do filme, com a introdução da música Circle of Life (Ciclo Sem Fim), num trecho falado na língua Zulu, como explicado antes. Veja o texto e a tradução na íntegra:

Nants ingonyama bagithi baba – Lá vem um leão;
Sithi uhhmm ingonyama – Sim! É um leão;
Nants ingonyama bagithi baba – Lá vem um leão;
Sithi uhhmm ingonyama – Sim! É um leão;
Ingonyama – Um Leão;
Siyo Nqoba – Nós vamos conquistar;
Ingonyama – Um Leão;
Ingonyama nengw’ enamabaal – É um leão e um tigre;
Ingonyama nengw’ enamabala – É um leão e um tigre;
Ingonyama nengw’ enamabala – É um leão e um tigre;

O tema Cicle of Life (Círculo Sem Fim) é introduzido pela cantora Carmen Twillie, acompanhada pelo coral do músico sul africano, Lebo M. No trecho, eles seguem o estilo Spirituals, que era cantado pelos negros escravos norte americanos, séculos antes, com enfase nas vozes e corais, sem o uso de instrumentos. Claro que o restante da canção Circle of Life, composta por Elton John e Tim Rice é ainda poderosa e inesquecível, bem como outras músicas da dupla utilizadas no filme. O estilo Spirituals contribuiu para o surgimento de outros ritmos negros, o Blues, o Gospel e o Jazz, no início do século XX e permanece vivo e relevante ainda hoje, em muitos países africanos.

Outra referência marcante da cultura africana é representada pelo personagem Rafiki, o sábio mandril. Suas atitudes e técnicas remetem a um curandeiro tribal africano. Com poucos diálogos, o personagem consegue cativar e envolver o público de uma forma única.

Por fim, o lema Hakuna Matata, traduzido como sem problemas, apresentado na trama, representando uma filosofia de vida para relaxar mais e deixar de se preocupar com os problemas. Os personagens cômicos Timão e Pumba introduzem a mensagem para Simba, com a divertida e icônica cancão. Mas Hakuna Matata não foi inventada para o filme. É uma expressão em suaíli, idioma falado em países como Quênia e Congo. “Hakuna” significa “não há” e “Matata” quer dizer “preocupação” ou “problema”. A expressão ficou popular na África, com o sucesso da canção “Jambo Bwana” da banda do Quênia, Them Mushrooms, um reggie africano na língua suali, lançado no início dos anos 80. Embora tenha se tornado mais um marco do filme. Não é a toa que a música de Beyoncé, incluída na nova versão, chama-se Spirit, focada nos elementos da cultura africana.

Inglaterra e Dinamarca numa só obra – A clássica peça de Teatro, Hamlet – O Príncipe da Dinamarca (1601), é uma tragédia do escritor inglês, William Shakespeare e também outra grande fonte de inspiração para a trama de Simba, em O Rei Leão.

Observe o resumo da clássica peça Hamlet – O Príncipe da Dinamarca. O jovem Hamlet (Simba) é atormentado pelo fantasma de seu pai, Hamlet I (Mufasa) que revela ter sido morto pelo próprio irmão, Cláudio (Scar), tio do jovem príncipe. Cláudio/Scar torna-se o novo rei, enquanto Hamlet/Simba, assustado, fica corroído de dúvidas sobre o que fazer. Momento marcado pela clássica frase: Ser ou não ser, eis a questão! O jovem se recusa a assumir seu destino, à princípio. Se recusa a enfrentar o problema (Hakuna Matata). Entretanto, as revelações do passado o obrigam a tomar uma atitude que assume as tintas da tragédia, na peça imortal. Outros personagens marcantes são a mãe do príncipe, Gertrudes (Sarabi), a noiva do príncipe, Ofélia (Nala), os dois amigos do príncipe, Rosencrantz e Guildenstern (Timão e Pumba) e os aliados de novo rei, Polônio e Laertes (as hienas Shenzi e Banzai). É preciso ainda analisar a obra japonesa para saber se a influência de Shakespeare veio de Tezuka ou se foi introduzida com a animação da Disney.

Conquista da Disney – Independente de referências e polêmicas, O Rei Leão (1994), dirigido Roger Allers, Rob Minkoff, foi um marco da animação do estúdio Walt Disney, rendendo continuações, séries de TV, quadrinhos, espetáculo na Broadway e uma nova versão fotorrealista para as telas, lançada em 2019, dirigida por Jon Favreau. A abertura do filme é considerada uma das melhores aberturas de todos os tempos e uma das mais inspiradoras. A clássica animação venceu o Oscar de Melhor Trilha Sonora composta por Hans Zimmer e Melhor Canção, para Elton John e Tim Rice, por “Can You Feel the Love Tonight”. Eles derrotaram a outra canção do mesmo filme, Circle of Life. Nas bilheterias, o filme arrecadou mundialmente US$ 987 milhões de dólares, enquanto a nova versão ultrapassou US$ 1,6 bilhão. Os executivos da Disney devem cantar Hakuna Matata diariamente.

É possível encontrar alguns episódios das séries de Kimba, o Leão Branco e a animação de 1997, no You Tube.

Para assistir O Rei Leão (1994), é possível alugar nas plataformas Microsoft e Claro Vídeo. O Rei Leão (2019) está disponível para alugar nas plataformas, Microsoft, Apple, Google Play e Looke. A nova produção foi disponibilizada pela Amazon Prime Video, mas é por pouco tempo. Ambas as animações deverão ser exclusivas do novo serviço, Disney Plus.

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