WandaVision – 1º temporada (2021) | Crítica

A minissérie WandaVision chegou com várias pretensões simultâneas. Abrir a fase 4 do Universo Cinematográfico Marvel; ser um componente valioso no acervo do recém-lançado serviço de streaming, Disney Plus; apresentar ao público uma real dimensão sobre o casal protagonista, Wanda e Visão, que, apesar da presença em vários filmes anteriores, sempre foram meros coadjuvantes; explorar, na série, o máximo de possibilidades narrativas permitidas pelos personagens escalados que os fãs já conhecem das melhores histórias em quadrinhos; traçar uma homenagem e retratar a história das séries sitcom’s (comédias de situação) norte americanas e, por tabela, a evolução da representação feminina em cada uma de suas manifestações e fases; provar que a Marvel é capaz de desenvolver um projeto ousado e inovador de sucesso, enfrentando o paradigma de que filme de super-herói precisa seguir narrativas, presas a fórmulas consagradas; E, o mais difícil, equilibrar uma trama entre episódios fechados e os elementos que constroem a narrativa geral da série, manter a linha de humor dos sitcom’s aparentes, com subtextos que remetem ao drama e a aventura do arco geral, além de sustentar uma trama fechada na série, com sutis diálogos e pontas soltas que conduzem ao painel mais amplo da fase 4 do Universo Marvel. Ufa! São muitos desafios. Confira prévia:

Se depender de WandaVision, os executivos da Marvel e da Disney podem dormir tranquilos. E com sentimento de dever cumprido. A série é tudo isso e mais um pouco. Devemos celebrar as escolhas narrativas ousadas, com um contexto criado pela série, tão inovador, que dificilmente será replicado. Tanto é que a série vai ficar limitada ao formato Mini. Não deverá haver temporada seguinte, mesmo sendo sucesso de audiência. Uma pena. As redes sociais são testemunha do burburinho, das discussões acaloradas, das teorias mais loucas, a ponto do diretor da série, Matt Shakman, ter adiantado que muitos fãs poderiam se decepcionar com o final dela. A repercussão de WandaVision remete a outras séries de mistério intrincado que mobilizam os fãs por suas tramas enigmáticas como Twin Peaks (1990), Arquivo X (1993), Lost (2004) ou Dark (2017).

As velhas gerações têm razões para curtir os episódios de WandaVision que emulam e homenageiam as séries de comédia, a lista é imensa. I Love Lucy (1951), Papai Sabe Tudo (1954), Dick Van Dyke Show (1961), Os Monstros (1963), A Família Addams (1964), Jeannie é um Gênio (1965), A Feiticeira (1964), The Brady Bunch (1969), Mork & Mindy (1978), Caras e Caretas (1982), Três É Demais (1987), Malcolm in the Middle (2000), Vida de Escritório (2005) e Família Moderna (2009), entre tantas outras. O detalhe é que a série Três é Demais, tem irmãs gêmeas como protagonistas, ambas, irmãs da atriz Elizabeth Olsen na vida real, a própria Wanda da nova série. Na trama, as referências às séries passadas refletem o desejo de Wanda de constituir uma vida e uma família feliz, apesar de ter enfrentado tantas decepções e perdas importantes em sua vida.

É improvável constituir o casamento entre uma mulher e um androide. Ou eles terem filhos. Ou formarem uma família feliz. Ou, ainda, serem aceitos socialmente. Mas Wanda Maximoff não é uma personagem qualquer. É uma super heroína. Uma Vingadora, que lutou ao lado de Thor, Capitão América e Homem de Ferro. Ela tem o poder de alterar a realidade e as probabilidades com base em suas vontades (e frustrações). É desse poder que vemos nascer um microuniverso particular na cidade de Westview, no interior dos Estados Unidos, com uma fachada em forma de sitcom’s. Alias, as séries norte americanas retratavam uma versão idealizada de vidas felizes, de famílias felizes, da plena realização do American Way of Life (Jeito norte americano de viver) que escondiam rachaduras por trás de seus sorrisos perfeitos. As séries também transmitiam meios de controle sociais para difundir uma visão conformista entre as mulheres. De aceitar seus papéis como mães perfeitas e donas de casa dedicadas aos seus maridos. Entretanto, com o passar do tempo, as próprias séries começam a refletir as transformações sociais do papel e da independência e do empoeiramento feminino.

Movida pela dor de seus traumas, Wanda busca refúgio na farsa de representar séries de TV, na tentativa de estabelecer um Wanda Way of Life. Viver plenamente sua vida com Visão, cuidar dos filhos, Billy e Tommy (Wiccano e Célere), cercados de vizinhos adoráveis. A escolha de séries de comédia não foi aleatória para a protagonista. A infância de Wanda foi marcada de privações e dificuldades vividas por sua família que buscavam alívio, justamente, com as séries norte americanas, numa alusão clara de que o país fictício de origem de Wanda, Sokovia, poderia ter existido por trás da Cortina de Ferro, amarrado a Rússia, no período histórico da Guerra Fria. São fatos reais que as famílias desses países, secretamente viam as séries dos EUA, através de cópias piratas de fitas VHS, como forma de ansiarem por uma vida melhor, também moldada pelos costumes vistos nas fitas, por mais que as séries também fossem representações fora da realidade. Como ideal de vidas melhores e mais felizes. O sonho norte americano que atrai tantos imigrantes.

Ao utilizar, inconscientemente, tanto poder, Wanda arrasta cidadãos reais para a sua realidade particular, mesmo contra a vontade deles. Um sequestro de proporções imensas que não poderia passar despercebido pelo mundo exterior. As ações de Wanda atrai aliados e inimigos de dentro e de fora de seu cenário encantado. Quem está de fora, tenta entrar, entender e controlar. Quem vive dentro, deseja sair, se libertar, não importa o custo. Enquanto, Wanda, consciente ou não, reage a qualquer rachadura em sua fortaleza suburbana. Mesmo que precise constantemente realizar ajustes a qualquer ameaça que possa quebrar o frágil tecido dessa realidade projetada. Mesmo que precise subjugar vizinhos xeretas, aliados, filhos e o próprio marido sintético.

Constantemente, o microcosmo de Wanda sofre interferências de todos os tipos. Alimentando para o espectador, a boa dose de interrogações sem resposta enquanto as décadas passam na velocidade dos episódios e os filhos nascem e crescem aos saltos. A metalinguagem é outra constante na narrativa. Com destaque para os títulos dos episódios que esclarecem a temática abordada, sempre com frases que remetem a própria evolução da televisão e das séries. O cuidado com a produção é um grande recheio do bolo, utilizando ajustes na proporção da tela e na cor, dependendo do episódio, além de toda a construção de cenários, figurinos e maquiagem condizente com as séries de origem que são reverenciadas. Até mesmo os intervalos comerciais, introduzidos com mensagens ocultas, além dos diálogos e contextos em que os personagens são submetidos também entram na mesma sintonia.

Enquanto, a cereja do bolo é, sem dúvida, seu elenco. Independente de serem protagonistas, coadjuvantes ou participações especiais. Há uma atuação perfeitamente condizente com a proposta da série. O tom geral de humor, com variações para o drama ou suspense, sem perder o contexto do humor. Sem parecer estranho nas transições. Impressionante, ver todas as variações emocionais de Wanda, entregue pela atriz Elizabeth Olsen; Ou a atuação surpreendente de Paul Bettany como Visão. Destaque ainda para Teyonah Parris como Monica Rambeau e Kathryn Hahn como Agnes. Mesmo após grandes revelações na trama, não fica claro se a principal antagonista tem o objetivo de fazer o bem ou o mal. Quando menos se espera, surge o personagem de Evan Peters, cercado de muito mistério e controvérsia.

No fim das contas, a grande vilã da trama é realmente Wanda. Mesmo sob o efeito do luto, da negação, do sofrimento causado por suas perdas, ela sequestra, aprisiona, manipula e induz as pessoas contra a vontade. Nada que tenha sofrido justifica seus atos. Mesmo sendo confrontada por outros antagonistas. Os rivais não conseguem superar a vilania da própria Wanda que, ironicamente, age em nome do amor e do desejo de ter uma família feliz. Isso não soa estranho aos fãs porque a personagem, desde seu surgimento, nos quadrinhos, oscila entre agir como vilã e heroína.

Para os fãs de longa data dos personagens, desde os quadrinhos da Marvel, a série se mostra um deleite. Um acerto. Uma miríade de sensações, embalados em uma viagem nostálgica pela história da própria televisão, bem como o bombardeio de referências extraídas dos quadrinhos da editora, como as tramas de Vingadores da Costa Oeste, na fase de John Byrne, a minissérie Visão e Feiticeira Escarlate (1985), a mega saga Dinastia M (2005), além das ideias da saga Visão (2015), de Tom King.

Para as gerações mais novas, surge a estranheza de uma narrativa fora dos padrões estabelecidos e sacramentados com o sucesso das várias produções da Marvel nos cinemas e demais séries de TV. Adotar uma proposta ousada e diferente tem o risco de não agradar a todos. Especialmente, quando o público fica acostumado com o padrão apresentado nas produções mais recentes, com suas doses de ação, humor leve, altos níveis de conflito e adrenalina e confrontos apoteóticos. Os dois últimos filmes de Vingadores não me deixam mentir.

A galera do momento, acostumada ao clique e acesse, a ter vastas bibliotecas de conteúdos, através da sagrada Internet, sente como perda de tempo, ter que viajar por décadas e mistérios intrincados, ainda que em minutos pincelados, para alcançarem as revelações e conflitos tão aguardados. Para eles, bastaria assistir aos episódios 4, 7, 8 e 9 pra satisfazerem as ansiedades. Tão relâmpago quanto a passagem exótica do Mercúrio na trama. Embora sacrifiquem, assim, o prazer do passeio, de mergulhar no clima, de embarcar na proposta, de confrontar as expectativas com os momentos finais.

Por mais que tenha proposta e desenvolvimentos ousados, WandaVision opta por entregar o que o grande público deseja em seu grande confronto final, porém, em consequência, torna as soluções mais simplistas, a ponto de deixar passar uma grande questão. O desfecho de Wanda não poderia ser o de um pássaro que voa para longe, livre. Ela se mostra poderosa demais, ameaçadora demais, imprevisível demais, para deixar passar, como se fosse uma heroína após o cumprimento de seu dever. Ainda que saibamos sobre o retorno de Wanda como um dos eixos centrais do filme Dr. Estranho 2 e as duas cenas pós crédito da série formalizem introduções de novos elementos para futuras séries e filmes. Ainda que Wanda possa sofrer consequências em outra produção da Marvel, ainda assim, será depois e não como desfecho dentro de WandaVision, numa situação que se mostra a grande lacuna da trama.

No geral, a série conclui sua trama, fechada em si, independente. Entrega muito do esperado. O confronto de Visão. A Feiticeira Escarlate em sua plenitude. Fótom em ação. A compreensão sobre Agatha e também Wanda. Embora, deixe algumas pontas soltas para futuros desdobramentos, como os destinos da Wanda, de Visão, a nova aliança de Fóton, a resolução da vizinha Agatha, guardada para futura oportunidade e a atuação da Agência Espada. Como WandaVision é apenas o começo da invasão Marvel através da Disney Plus, não vão faltar novas oportunidades de explorar esse universo fascinante e divertido com produções como Falcão e o Soldado Invernal, Loki, Invasão Secreta, entre outros. Stan Lee certamente ficaria orgulhoso do resultado. Se deixe mergulhar na ficção dentro da ficção metalinguística criada por Wanda onde o entretenimento serve de guia na nova fase do mundo maravilhoso da Marvel. Excelsior!!! Que venham os próximos.

Classificação:

Veja outras críticas nossas, relacionadas a Disney Plus:

O primeiro programa da Marvel para a Disney Plus possui 9 capítulos, e chegou ao fim na última sexta-feira (05).

One Reply to “WandaVision – 1º temporada (2021) | Crítica”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *